Ilustração: The Blind Spot, com recurso a inteligência artificial da OpenAI.

O YouTube já tinha denunciado iniciativas em discussão na União Europeia e no Reino Unido que poderão obrigar a plataforma a direcionar audiências para ‘canais escolhidos pelo Governo’, em detrimento de criadores e media independentes. Agora o governo trabalhista britânico avançou mesmo com um projeto para priorizar conteúdos de operadores de serviço público nas redes sociais e plataformas de vídeo. Recorde-se que o principal operador público, apresentado pelo Governo como uma fonte imparcial e fiável, a BBC, acumula um longo historial de informações falsas ou enganosas, manipulações editoriais e violações dos princípios de rigor e imparcialidade.

Já em abril o diretor sénior de Assuntos Governamentais e Políticas Públicas do YouTube na Europa tinha avisado que no Reino Unido e na União Europeia estavam em discussão novas regras. Num texto publicado em 15 de abril, David Wheeldon alertou:

“As regras de destaque que estão a ser discutidas na UE e no Reino Unido distorceriam a economia digital, forçando o YouTube a dar prioridade a canais escolhidos pelo governo em detrimento de criadores independentes.”

Mais recentemente, o YouTube divulgou junto de criadores um novo alerta sobre a iniciativa do Governo britânico que pretende aumentar a visibilidade dos conteúdos da BBC e dos restantes operadores de serviço público. 

Nessa mensagem afirma que “o YouTube sempre funcionou com base no princípio de que todos os criadores têm uma oportunidade justa” e que “os vídeos conseguem envolvimento porque estabelecem uma ligação com o seu público” e não por terem sido “escolhidos por uma entidade que controla o acesso”.

Com as novas regras, o YouTube afirma que será obrigado “a conceder tratamento especial a um pequeno grupo de organizações escolhidas pelo Governo” e a empurrar os restantes canais para a fila de trás. Tudo isto, segundo o YouTube, aconteceria “independentemente daquilo que os espectadores realmente querem ver”.

Fonte: GB Politics no X: “🚨NEW: A message from YouTube to its content creators has been verified It warns the UK government will force them to push legacy media outlets, like the BBC, ITV, and Channel 4, over independent commentators and journalists https://t.co/Zim9sqBZsK” / X

Proposta do governo britânico

O Livro Verde do Governo britânico, publicado em 23 de junho e atualizado em 10 de julho de 2026, propõe uma intervenção regulatória na forma como os conteúdos são apresentados e recomendados nas plataformas digitais. Nomeadamente, da BBC e dos restantes operadores de serviço público, incluindo ITV, STV, Channel 4, Channel 5 e S4C.

O objetivo declarado é recuperar alcance, sobretudo junto dos mais jovens, tornando esses conteúdos mais visíveis nas redes sociais, no YouTube, nas plataformas de vídeo, nos televisores inteligentes e noutros serviços cuja recomendação de conteúdos dependem de sistemas algorítmicos. 

O Governo sustenta que a perda de audiência não resulta necessariamente de menor interesse pelos programas, mas da migração estrutural do público para plataformas digitais onde os conteúdos dos operadores tradicionais concorrem em “feeds” personalizados. O documento combina acordos voluntários com as plataformas, eventual imposição legislativa de regras de destaque, produção de conteúdos concebidos especificamente para redes sociais e uma reforma mais profunda do modelo de serviço público. 

Em termos práticos, trata-se de utilizar regulação, resultados de pesquisa, páginas iniciais e sistemas de recomendação das plataformas para aumentar a exposição da BBC e de outros operadores considerados de serviço público ou “fiáveis”. 

Principais medidas propostas

1. Obrigar as redes sociais a dar maior destaque a notícias consideradas «fiáveis»

O Governo pretende estudar legislação que obrigue redes sociais e, eventualmente, plataformas de vídeo a colocar notícias de determinados fornecedores numa posição mais visível. O texto refere conteúdos noticiosos da BBC e dos restantes operadores de serviço público, mas admite incluir órgãos nacionais, regionais e locais.

A justificação apresentada é a de que os algoritmos podem favorecer conteúdos polémicos, emocionais ou incorretos em detrimento de fontes reguladas, sobretudo durante crises, eleições, desordem pública ou acontecimentos com elevada exposição a desinformação.

O aspeto mais relevante é que os critérios para determinar o que constitui um fornecedor de notícias “fiável” ainda não estão definidos. O documento admite usar como ponto de partida fatores como controlo editorial, código deontológico, mecanismo de reclamações, transparência e regras sobre inteligência artificial. Assim, a medida poderá não se limitar à promoção da BBC, criando também um regime público de seleção dos órgãos de comunicação social que beneficiarão de maior visibilidade algorítmica. 

2. Dar destaque obrigatório ou negociado aos conteúdos da BBC e dos restantes operadores nas plataformas de vídeo

O documento propõe que conteúdos de serviço público, inicialmente notícias e programas infantis, mas potencialmente também entretenimento, desporto, cultura e outros géneros, sejam promovidos nas páginas iniciais, resultados, recomendações e interfaces de plataformas de vídeo, incluindo o YouTube .

A prioridade oficial são acordos voluntários entre os operadores e as plataformas. No entanto, o Governo deixa em aberto a possibilidade de legislar se esses acordos não produzirem resultados considerados suficientes. As medidas deveriam funcionar em telemóveis, computadores e televisores conectados e ser avaliadas pelos resultados de visibilidade obtidos, deixando às plataformas alguma liberdade na implementação.

A principal justificação é de que a televisão tradicional alcança semanalmente apenas 43% dos jovens entre os 16 e os 24 anos; em média, os espectadores passam diariamente 51 minutos em plataformas de partilha de vídeo, 40 minutos em serviços de streaming e 25 minutos nos serviços a pedido dos operadores televisivos. Segundo o Governo, se os conteúdos da BBC e dos restantes operadores não aparecerem onde os jovens estão, deixa de existir, na prática, acesso universal ao serviço público.

3. Produzir conteúdos especificamente para o YouTube e para as redes sociais

O acordo entre a BBC e o YouTube, anunciado em janeiro de 2026, é apresentado pelo governo como modelo. A BBC passou a produzir para a plataforma conteúdos próprios de entretenimento, informação e programação infantil, tendo a parceria sido utilizada na cobertura dos Jogos Olímpicos de Inverno.

A proposta não consiste apenas em republicar programas televisivos. Pressupõe adaptar formatos, duração, linguagem e distribuição às plataformas onde se encontram os públicos mais jovens. O documento também incentiva parcerias entre operadores tradicionais e criadores digitais, combinando a dimensão e os recursos da BBC com a capacidade de inovação e o público dos criadores independentes.

4. Alargar as obrigações de produção dos operadores públicos às plataformas digitais 

Numa futura reforma do sistema, os operadores com estatuto de serviço público poderão ficar obrigados a produzir e distribuir parte dos seus conteúdos diretamente através de plataformas digitais. 

Isto significaria que as obrigações de serviço público deixariam de estar centradas apenas nos canais televisivos e passariam a incluir YouTube, redes sociais, aplicações e serviços a pedido. 

5. Alargar o sistema de serviço público a novos operadores, serviços ou conteúdos

O Governo apresenta três modelos possíveis:

  1. Manter operadores específicos reconhecidos como instituições de serviço público.
  2. Dar esse estatuto a serviços concretos, como uma plataforma de documentários ou um canal educativo no YouTube.
  3. Classificar conteúdos individuais como serviço público, independentemente de quem os produz ou distribui.

O segundo e o terceiro modelos permitiriam que algoritmos recomendassem conteúdos qualificados como de serviço público a utilizadores que deixaram de acompanhar a BBC ou os canais tradicionais. O documento considera que isto poderá aumentar a probabilidade de contacto com esses conteúdos, particularmente entre públicos que deixaram de acompanhar os operadores tradicionais de serviço público.

6. Compensar a perda de audiências e receitas com vantagens regulatórias 

O Governo relaciona a perda de audiência com a perda de receitas. Segundo o documento, em termos reais, as receitas provenientes da licença televisiva diminuíram mais de 25% desde 2016, enquanto a publicidade digital não compensou totalmente essa queda. Propõe-se, por isso, reequilibrar as obrigações impostas aos operadores com benefícios como destaque nas plataformas, condições comerciais consideradas justas, novas parcerias e eventual acesso ao estatuto de serviço público.

Quem decidirá quais são os fornecedores “fiáveis”

Uma das principais questões é a da futura definição governamental de “fornecedor de notícias fiável”. Essa questão, que permanece em aberto, terá implicações diretas na concorrência, na pluralidade e na liberdade editorial.

No entanto, as regras propostas explicitam já que a intenção do governo é promover a BBC como o principal operador britânico de serviço público, com a marca de “independência” e “fiabilidade”.

Contudo, a BBC acumula um vasto historial de informações falsas ou enganosas, manipulações editoriais, omissões relevantes e violações das regras de rigor e imparcialidade. 

Casos relacionados com alterações climáticas 

A cobertura das alterações climáticas pela BBC tem originado várias queixas consideradas procedentes inclusive pela sua própria unidade interna de reclamações. Entre os casos mais relevantes encontram-se os seguintes: 

2019-20: A carne como ameaça para o Planeta

A Unidade Executiva de Reclamações da BBC (ECU) reconheceu a “violação de imparcialidade” de um documentário do canal sobre pecuária ao extrapolar para a realidade britânica conclusões baseadas sobretudo em sistemas intensivos norte-americanos e brasileiros. Deste modo, deu razão à queixa da União Nacional dos Agricultores. 

2021: energia eólica marítima “praticamente sem subsídios”

Justin Rowlatt, editor de clima da BBC, afirmou que a indústria eólica marítima britânica era “agora praticamente livre de subsídios”. A ECU concluiu que não ficou claro que a afirmação se referia apenas a determinados projetos recentemente contratados. Como instalações existentes continuavam a receber apoios significativos, o público podia interpretar incorretamente a frase como aplicável a toda a indústria. 

2021–2022: aumento das mortes por fenómenos extremos

Justin Rowlatt, afirmou erradamente que mortes provocadas por fenómenos meteorológicos extremos estavam a aumentar. Contudo, as afirmações seriam dadas como infundadas, uma vez que, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial, o número de mortes a eles associadas tem descido.

2021–2022: fome de Madagáscar “provocada pelo clima”

A ECU considerou igualmente inadequada a descrição da crise alimentar como tendo sido causada pelas alterações climáticas. Um estudo de atribuição não encontrou uma influência significativa das alterações climáticas na falta de precipitação analisada e identificou fatores sociais, económicos e estruturais como determinantes. 

2024: população mundial de ursos-polares

A ECU concluiu que a BBC não tinha fundamento suficiente para afirmar que a população global estava já em declínio. A evidência indicava estabilidade aparente, tendências regionais distintas e grandes incertezas.

2024–2025: onda de calor “35 vezes mais provável”

A ECU considerou que o título apresentou uma estimativa de atribuição climática como facto não qualificado. A notícia foi alterada, embora o estudo citado tivesse efetivamente produzido essa estimativa.

Manipulação, difamação, violações de privacidade e encobrimento 

Fora da cobertura climática, a BBC esteve envolvida em casos de manipulação de imagens e declarações, utilização de documentos falsificados, alegações difamatórias, violações de privacidade e falhas institucionais de supervisão. 

Manipulação do discurso de Donald Trump

Num documentário do Panorama sobre as eleições norte-americanas, a BBC juntou duas passagens distintas do discurso de Donald Trump de 6 de janeiro de 2021. As frases encontravam-se separadas por cerca de 39 minutos, mas foram apresentadas como uma declaração contínua, criando a impressão de que Trump tinha apelado diretamente a uma ação violenta no Capitólio.

A montagem omitiu a passagem em que Trump afirmava que os apoiantes deveriam manifestar-se “pacificamente e patrioticamente”. O presidente da BBC, Samir Shah, reconheceu que a edição transmitiu a impressão de um apelo direto à violência e apresentou um pedido de desculpas por “erro de julgamento”.

Documentos falsos para obter a entrevista à princesa Diana

O inquérito independente dirigido por John Dyson concluiu que o jornalista Martin Bashir mandou fabricar extratos bancários e utilizou-os para enganar Charles Spencer, irmão da princesa Diana, e obter acesso à princesa.

Dyson concluiu também que Bashir violou gravemente as regras editoriais e que a investigação interna conduzida pela BBC em 1996 foi inadequada. A própria BBC aceitou integralmente as conclusões do relatório.

Investigação sobre Jimmy Savile abandonada

Em 2011, o Newsnight abandonou uma investigação sobre acusações de abusos sexuais cometidos por Jimmy Savile, uma das figuras mais conhecidas da BBC, pouco antes de a estação transmitir programas de homenagem ao apresentador.

O inquérito Pollard concluiu que a decisão de abandonar a reportagem tinha sido “seriamente deficiente”, embora não tenha encontrado provas de que tivesse sido tomada especificamente para proteger os programas de homenagem.

Imagens não autênticas num documentário sobre a Primark

Em 2011, o Comité de Padrões Editoriais do BBC Trust concluiu que era “mais provável do que não” que uma sequência utilizada num documentário do Panorama sobre trabalho infantil na cadeia de fornecimento da Primark não fosse autêntica.

A BBC tinha apresentado as imagens como prova de que três rapazes trabalhavam em peças da marca numa oficina em Bangalore. O comité concluiu que a atividade filmada não parecia genuína e que a sequência não deveria ter sido transmitida.

Falsa acusação contra Lord McAlpine

Em 2012, o Newsnight transmitiu uma reportagem sobre alegados abusos sexuais cometidos por um antigo político conservador. Embora Lord McAlpine não tenha sido diretamente identificado, os elementos apresentados conduziram à sua identificação pública.

A acusação revelou-se falsa e a BBC pagou 185 mil libras, além das custas, por difamação.

Documentário sobre Gaza considerado enganador

No documentário Gaza: How to Survive a Warzone, transmitido em 2025, a BBC não informou os espectadores de que o pai do principal narrador era vice-ministro da Agricultura da administração de Gaza controlada pelo Hamas.

A própria BBC reconheceu “falhas graves” na produção e uma violação das regras de rigor. A Ofcom concluiu posteriormente que a omissão era materialmente enganadora. O documentário foi retirado do iPlayer.

Fontes:

The future of discovery: Keeping it fair for creators and partners

Watch this space: a new strategic direction for UK media – green paper and public consultation – GOV.UK 

HEADLINE: “BBC Complaint Upheld”, By Paul Homewood 

BBC’s Justin Rowlatt made ‘misleading’ weather claims in Panorama show, probe finds | The National 

BBC climate editor found to have made ‘misleading’ claims on climate change and weather on Panorama 

More Polar Bear Propaganda From The BBC | NOT A LOT OF PEOPLE KNOW THAT 

BBC enfrenta possível processo de mil milhões após denúncias de várias manipulações contra Trump – The Blind Spot

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