Luís Neves fez declarações objetivamente falsas, violou obrigações de transparência e continua sem esclarecer suspeitas de ilegalidades, conflitos de interesse e sobreposição entre relações pessoais e decisões públicas. Mas, se a sucessão de casos que envolvem o ministro, responsável pela PSP e GNR e antigo diretor nacional da PJ é avassaladora, a proteção de que parece gozar é ainda mais notória.
A sua defesa pelo governo a que pertence, e do partido que o apoia, pode ser considerada relativamente normal, ainda assim não deixam de ser surpreendentes as posições de figuras como Carlos Moedas. Com tudo o que já se sabe, que é já grave, e com as fortes suspeitas não esclarecidas, o presidente da Câmara de Lisboa optou por defendê-lo e considerar que o ministro “é muito competente e “que dedicou a vida à justiça, a prender ladrões”.
Mas as maiores evidências de proteção vieram da oposição e, em primeiro lugar, do PS. Além de dar pouco destaque ao caso, algo totalmente anormal para um partido de oposição perante um caso do género, não se concentrou no essencial do caso como: na veracidade das declarações do ministro, nas suas obrigações de transparência, na legalidade das obras realizadas ou nos contratos feitos pela PJ enquanto era seu diretor nacional. Por exemplo, o seu líder parlamentar socialista preferiu entrar numa disputa com o Chega que acusou de querer fragilizar a Polícia Judiciária e até de desviar o debate para as investigações da PJ à extrema-direita.
Também a resposta dos partidos mais à esquerda foi contida. Livre e PAN praticamente ignoram o caso. Concentrando as críticas no ministro da educação, envolvido no caso dos exames nacionais. Já o PCP e o Bloco de Esquerda, principalmente o Bloco, foram mais contundentes e exigiram esclarecimentos. Ainda assim, com uma postura muito mais suave do que seria de supor, especialmente se considerarmos o alinhamento ideológico do governo em causa.
A IL só anunciou em 23 de julho que pretendia chamar Luís Neves à Comissão Permanente, quase duas semanas depois do início público do caso. No dia 25 de julho, Mariana Leitão endureceu o discurso, acusando o silêncio do ministro de desgastar o Governo e contaminar a imagem da PJ.
Apenas o Chega, após um período cauteloso, adensou as críticas mais cedo e anunciou a iniciativa parlamentar de maior alcance: uma comissão de inquérito aos mandatos de Luís Neves na PJ.
Sendo assim, fica a pergunta: O que faz com que partidos, supostamente de oposição e com uma orientação ideológica oposta, tenham um comportamento tão atípico perante casos desta gravidade?
Será uma questão meramente ideológica, dadas as posições do ministro relativamente à imigração e a sua defesa de narrativas como a da diversidade e da “masculinidade tóxica”?
Existirão casos graves ligados a partidos políticos a que Luís Neves teve acesso enquanto diretor nacional da PJ e que, agora, de alguma forma, condicionam a sua atuação?
Fará ele parte de um grande grupo de interesse ou fraternidade que une membros de várias famílias políticas em torno de agendas e interesses comuns?
Não tenho resposta para essas perguntas que muitos fazem, mas as suspeitas são legítimas e devem ser investigadas em profundidade. Algo que muito poucos parecem estar interessados em fazer.
Ver também:
Luís Neves fez declaração falsa sobre contratação de empresa pela PJ – The Blind Spot
Novo MAI foi responsável por alegações enganadoras difundidas pelos media – The Blind Spot
