David Morens, que trabalhava diretamente para o gabinete dirigido por Anthony Fauci, declarou-se culpado de participar numa conspiração destinada a esconder comunicações, contornar pedidos de acesso a documentos públicos e favorecer a organização que financiou investigação sobre coronavírus. Os factos admitidos incluem ajudar a EcoHealth Alliance a recuperar financiamento público, combater a hipótese de uma fuga laboratorial e criar a aparência de um consenso científico independente.
David Morens, de 78 anos, declarou-se culpado em 18 de agosto, num tribunal federal de Greenbelt, no Maryland, de conspiração para cometer crimes e defraudar os Estados Unidos.
A declaração de culpa diz respeito a um esquema para contornar a Freedom of Information Act, conhecida como FOIA, e a Federal Records Act, legislação que obriga os funcionários federais a preservar as comunicações relacionadas com as suas funções.
Morens tinha sido acusado em abril de cinco crimes, incluindo conspiração, destruição ou falsificação de registos utilizados em investigações federais e ocultação de documentos públicos. No acordo agora apresentado, declarou-se culpado da acusação de conspiração. O Ministério Público comprometeu-se a pedir o arquivamento das restantes acusações no momento da sentença, caso Morens cumpra as condições estabelecidas.
O antigo funcionário enfrenta uma pena máxima de cinco anos de prisão, três anos de liberdade supervisionada e uma multa até 250 mil dólares. A pena efetiva será determinada pelo tribunal.
A exposição factual assinada por Morens estabelece que a conspiração começou aproximadamente em abril de 2020 e continuou, pelo menos, até junho de 2023. Reconheceu também que o esquema foi executado com dois outros participantes e várias pessoas não identificadas.
Morens ocupava uma posição de confiança junto de Fauci
Morens trabalhou entre 2006 e o final de 2022 como conselheiro sénior no gabinete do diretor do NIAID, a agência então liderada por Anthony Fauci.
Embora os documentos judiciais utilizem a designação anonimizada «Senior NIAID Official 1», a descrição do cargo e das datas corresponde a Fauci, que dirigiu o instituto entre 1984 e 2022.
Segundo os factos admitidos, Morens:
- aconselhava o diretor e outros responsáveis superiores sobre matérias científicas e de saúde pública;
- preparava recomendações para reuniões com o Congresso, a Casa Branca e outras agências;
- recolhia informações sobre a COVID-19 e sobre o financiamento da investigação com coronavírus;
- informava o diretor para que este pudesse transmitir dados ao Presidente, ao Congresso e ao público;
- ocupava uma posição sensível, com influência substancial sobre o processo de decisão.
Esta descrição judicial contrasta com a forma como Fauci caracterizou a relação em junho de 2024. Perante a Câmara dos Representantes, Fauci afirmou que Morens o ajudava a escrever artigos científicos, mas que não era seu conselheiro para as políticas do instituto ou para outras matérias substantivas.
Fauci declarou também que nada sabia das ações de Morens relativas a Peter Daszak, à EcoHealth Alliance ou à utilização de correio eletrónico privado. Reconheceu, porém, que utilizar contas pessoais para assuntos oficiais, apagar registos para evitar a FOIA e auxiliar secretamente um beneficiário de financiamento violavam as regras da agência.
Os objetivos assumidos da conspiração
A confissão identifica vários objetivos coordenados.
O primeiro era impedir que o Departamento de Saúde, o NIH e o NIAID cumprissem devidamente as obrigações previstas na FOIA e na legislação sobre conservação de registos federais.
O segundo consistia em ajudar a organização identificada como «Company 1» e o respetivo presidente a recuperar financiamento público. O número da subvenção, a descrição da organização e as comunicações anteriormente divulgadas identificam a entidade como a EcoHealth Alliance e o seu então presidente como Peter Daszak.
Em 2014, o NIAID atribuiu à EcoHealth Alliance a subvenção Understanding the Risk of Bat Coronavirus Emergence. Uma parte dos fundos foi entregue ao Instituto de Virologia de Wuhan. O NIH cancelou a subvenção em abril de 2020, depois de a possível relação entre o laboratório e a origem da pandemia ter começado a ser publicamente investigada.
Morens e os restantes participantes comprometeram-se então a ajudar Daszak a contestar a decisão, restaurar o financiamento e contrariar a hipótese de o SARS-CoV-2 ter escapado de um laboratório.
O terceiro objetivo era utilizar a posição de Morens para transmitir informações internas à EcoHealth Alliance, preparar respostas dirigidas à liderança do NIH e influenciar as decisões da própria agência.
O quarto era produzir artigos e intervenções públicas favoráveis à EcoHealth sem revelar a participação de Daszak ou de colaboradores diretamente ligados à organização. A exposição factual afirma expressamente que se pretendia criar a aparência de um consenso científico independente e evitar a declaração de interesses concorrentes.
O quinto objetivo era proteger estas atividades da fiscalização pública, administrativa e parlamentar, escondendo, removendo ou destruindo os respetivos registos.
O Departamento de Justiça confirmou estes elementos depois da declaração de culpa.
Gmail privado para esconder comunicações oficiais
Em 25 de abril de 2020, um dia depois do cancelamento da subvenção, Morens transferiu comunicações da sua conta oficial do NIH para a conta pessoal do Gmail.
Depois instruiu os restantes participantes a enviarem todas as respostas para essa conta privada. Na mesma mensagem, afirmou que o responsável superior do NIAID estava informado e que existiam esforços internos para limitar os danos para Daszak, para os seus colegas e para o NIH e o NIAID.
No dia seguinte, Daszak confirmou por escrito que passariam a comunicar com Morens através do Gmail.
A partir daí, a conta privada foi utilizada para:
- transmitir informação interna e não pública do NIH;
- discutir formas de recuperar o financiamento da EcoHealth;
- preparar respostas de Daszak à própria agência que financiava a organização;
- coordenar argumentos sobre a origem da COVID-19;
- acompanhar pedidos de acesso a documentos e investigações do Congresso;
- encaminhar informação para o responsável superior do NIAID.
Estas comunicações constituíam registos federais e deveriam ter sido criadas, conservadas e transmitidas nos sistemas oficiais.
Informação destinada a chegar a Fauci sem deixar registo
Os factos admitidos documentam várias situações em que Morens funcionou como intermediário entre Daszak e o dirigente identificado como «Senior NIAID Official 1».
Em abril de 2021, Morens preparou Daszak para uma reunião por videoconferência com esse dirigente. Explicou que seria preferível ligar diretamente os dois de forma «off the record», porque o NIAID estava constantemente sujeito a pedidos FOIA e era importante que o responsável não tivesse documentos que pudessem posteriormente causar problemas.
Daszak autorizou Morens a mostrar ao dirigente os documentos que lhe tinha enviado, mas pediu que o fizesse de forma a evitar a FOIA. Caso isso não fosse possível, sugeriu que os documentos fossem apenas exibidos através da partilha de ecrã durante a reunião.
Em outubro do mesmo ano, Daszak voltou a pedir a Morens que transmitisse informação ao dirigente para evitar que este dissesse publicamente «a coisa errada» ou prejudicasse ainda mais a EcoHealth. Morens recebeu também pontos de argumentação destinados a convencer responsáveis do NIH de que as críticas feitas à organização estavam erradas.
Estes episódios demonstram que Fauci era o destinatário pretendido de parte da informação transmitida através do circuito clandestino.
Artigo científico sem as «impressões digitais» da EcoHealth
Outro objetivo assumido era influenciar o debate científico sobre a origem do vírus.
Em maio de 2020, Morens informou Daszak de que estava a preparar um artigo que beneficiaria a EcoHealth Alliance, mas que os intervenientes diretamente associados à organização deveriam ficar sem «impressões digitais» no texto. Acrescentou que precisava de manter o assunto fora do correio eletrónico e do telefone oficiais.
Em 3 de julho de 2020, Morens submeteu a uma revista médica um comentário científico que defendia uma origem natural do SARS-CoV-2. O documento foi parcialmente financiado pelo programa interno do NIAID.
A cronologia, o conteúdo e os autores coincidem com o artigo The Origin of COVID-19 and Why It Matters, publicado em 22 de julho de 2020 no American Journal of Tropical Medicine and Hygiene. Daszak e a EcoHealth Alliance não aparecem entre os autores. O texto afirmava que um amplo conjunto de dados estabelecia que o vírus tinha evoluído, direta ou indiretamente, a partir de coronavírus que infetavam naturalmente morcegos e pangolins.
Vinho e promessa de restaurantes com estrelas Michelin
Morens admitiu igualmente que a conspiração envolveu gratificações ilegais associadas a atos oficiais.
Em junho de 2020, Daszak enviou-lhe duas garrafas de vinho The Prisoner Red Napa Valley. A mensagem que acompanhava a oferta agradecia os conselhos, o apoio e as ações realizadas «nos bastidores» na disputa contra responsáveis da Administração Trump.
Morens respondeu que teria de fazer alguma coisa para merecer a oferta e mencionou, entre os serviços prestados, o comentário científico que destacava a importância do trabalho de Daszak sem referir diretamente a EcoHealth ou o cancelamento da subvenção.
No dia seguinte, Daszak prometeu uma nova fase de ofertas, que poderia incluir refeições em restaurantes com estrelas Michelin em Paris, Washington ou Nova Iorque.
O acordo de culpa reconhece que Morens recebeu e aceitou receber bens de valor por atos oficiais favoráveis a Daszak e à EcoHealth Alliance.
O que a confissão implica para Fauci
A declaração de culpa estabelece criminalmente que um funcionário colocado no gabinete de Fauci participou numa conspiração para esconder documentos públicos, proteger a EcoHealth Alliance, combater a hipótese de fuga laboratorial e transmitir informações à direção do NIAID sem criar um registo facilmente acessível.
Estabelece também que Morens apresentava aos restantes participantes Fauci como alguém informado sobre a situação da EcoHealth e potencialmente recetivo a esforços para reparar os danos provocados pelo cancelamento do financiamento.
O antigo diretor não é identificado como co-conspirador, não foi acusado neste processo e negou ter ordenado ou conhecido a utilização de contas privadas, a destruição de documentos ou os atos praticados para beneficiar Daszak.
A diferença entre aquilo que Morens comunicava privadamente e aquilo que Fauci declarou ao Congresso permanece, contudo, material. Morens descrevia reuniões regulares com Fauci, transmitia informações em nome de Daszak e dizia que o antigo diretor queria proteger a EcoHealth. Fauci afirmou que desconhecia essas atividades e que Morens não o aconselhava sobre políticas do instituto ou matérias substantivas.
A confissão ocorreu poucas semanas depois de Fauci ter recusado responder às perguntas de uma comissão do Senado, invocando repetidamente a Quinta Emenda. Em 6 de agosto, a comissão aprovou, por oito votos contra cinco, uma resolução por desacato ao Congresso.
De recordar que Fauci recebeu ainda, em janeiro de 2025, um perdão presidencial pleno por eventuais crimes federais relacionados com as suas funções oficiais entre 2014 e a data do perdão.
Fontes:
Acordo de culpa de Morens apresentado no processo federal | gov.uscourts.mdd.603873.36.0.pdf
Exposição factual assinada por Morens | gov.uscourts.mdd.603873.36.1.pdf
Ver também:
Fauci invocou a Quinta Emenda – The Blind Spot
Diário de Fauci: um homem de duas caras – The Blind Spot
Documentos expõem rede de desinformação coordenada por Fauci – The Blind Spot
Agência de Fauci continua a financiar responsáveis do laboratório de Wuhan – The Blind Spot
