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A Red Eléctrica voltou a recorrer à redução forçada do consumo industrial para equilibrar o sistema elétrico espanhol e evitar um possível apagão. A intervenção de 11 de agosto, a quarta deste tipo em 2026 e a terceira em menos de um mês, foi justificada pela queda da produção eólica. O episódio ocorreu numa altura em que o preço grossista da eletricidade disparou: em julho, o preço médio espanhol aumentou cerca de 50% face a junho e também cerca de 50% relativamente ao mesmo mês de 2025. 

O novo incidente aconteceu às 21h28 de terça-feira, 11 de agosto. Perante um desequilíbrio entre a produção disponível e a procura, a Red Eléctrica ativou o Serviço de Resposta Ativa da Procura, conhecido pela sigla espanhola SRAD.

Foram mobilizados 943 MW de potência e o consumo foi reduzido em 1.412,6 MWh durante aproximadamente uma hora e meia. O preço médio ponderado da energia ativada foi de 210,91 euros/MWh, correspondendo a cerca de 298 mil euros de remuneração pela energia associada à ativação do mecanismo de resposta da procura.

Na prática, determinados grandes consumidores previamente contratados reduzem rapidamente a sua utilização de eletricidade quando o operador solicita essa intervenção.

Segundo a Red Eléctrica, a causa foi «uma redução da produção eólica não prevista». O operador sustenta que «a continuidade do fornecimento não esteve em nenhum momento comprometida» e que a medida foi utilizada para garantir os níveis de reserva exigidos.

No entanto, o THE OBJECTIVE afirma que o país esteve «a ponto de sofrer outro apagão» e que a redução do consumo industrial foi a solução mais rápida, uma vez que colocar mais centrais de ciclo combinado a gás em funcionamento exige tempo.

Quarta intervenção em 2026

A utilização do SRAD não é inédita. O mecanismo existe desde 2022 e foi especificamente concebido para situações em que o operador considera insuficientes os recursos disponíveis para manter a reserva necessária no sistema elétrico peninsular.

A sua utilização deverá, segundo a própria Red Eléctrica, ocorrer apenas em situações pontuais.

Em 2026, porém, já foi acionado em quatro ocasiões:

  • 28 de janeiro;
  • 15 de julho;
  • 17 de julho;
  • 11 de agosto.

A repetição das intervenções durante o verão é particularmente relevante. Só entre meados de julho e 11 de agosto, o mecanismo foi utilizado três vezes. Em três das quatro intervenções foram mobilizados 943 MW em cada uma, segundo os dados divulgados sobre as ativações recentes.

Para o segundo semestre de 2026, a Red Eléctrica contratou um total de 1.775 MW através do SRAD. A própria empresa tinha solicitado 2.339 MW, pelo que a potência efetivamente adjudicada correspondeu a apenas 76% das necessidades previstas pelo operador.

Na intervenção de 11 de agosto foi, portanto, necessário mobilizar mais de metade de toda a capacidade contratada através deste mecanismo.

Grandes consumidores são pagos para reduzir o consumo

O SRAD não corresponde a um corte indiscriminado da eletricidade à indústria. É um serviço voluntário e remunerado. Empresas e agregadores comprometem-se previamente a reduzir rapidamente o consumo quando recebem uma ordem da Red Eléctrica.

Para o segundo semestre de 2026, foram habilitados 36 fornecedores, que disponibilizaram inicialmente 2.413 MW em ofertas. O operador acabou por contratar 1.775 MW.

Os participantes recebem 42,62 euros por MW e por hora pela disponibilidade contratada. Quando o mecanismo é efetivamente ativado, a redução realizada é remunerada de acordo com o preço da regulação terciária naquele momento.

Cada ativação pode durar, no máximo, duas horas e os participantes recebem um aviso com pelo menos 12,5 minutos de antecedência.

O mecanismo permite, assim, diminuir a procura quase imediatamente quando não é possível aumentar a produção elétrica com suficiente rapidez.

Eletricidade ficou cerca de 50% mais cara em julho

Os problemas de equilíbrio do sistema coincidem com uma forte subida do preço da eletricidade no mercado grossista.

Segundo o relatório oficial do Operador do Mercado Ibérico de Energia, OMIE, o preço médio do mercado diário espanhol passou de 69,59 euros/MWh em junho para 104,75 euros/MWh em julho. Em julho de 2025 tinha sido de 70,01 euros/MWh.

Ou seja, o preço médio espanhol em julho de 2026 ficou aproximadamente 50% acima tanto do mês anterior como do mesmo mês de 2025.

Os preços mantiveram-se elevados em agosto.

Neste sábado, 15 de agosto, o mercado diário registou um preço médio de 116,51 euros/MWh em Espanha, com valores entre um mínimo de 0,51 euros/MWh e um máximo de 209,95 euros/MWh. Em Portugal, o preço médio é praticamente idêntico: 116,57 euros/MWh.

A grande diferença entre os valores mínimos e máximos ao longo do mesmo dia ilustra também um dos desafios de um sistema com uma proporção elevada de produção variável.

Quando existe abundante produção solar, os preços podem aproximar-se de zero. Quando essa produção desaparece ao final do dia e a produção eólica é inferior ao previsto, outras tecnologias e mecanismos de equilíbrio têm de cobrir rapidamente a procura.

Mais renováveis aumentam a necessidade de mecanismos de equilíbrio

O problema não reside na impossibilidade de integrar grandes quantidades de energia solar ou eólica, mas na necessidade crescente de compensar rapidamente as suas variações.

O próprio OMIE reconhece que a importância dos mercados intradiários aumentou nos últimos anos «como consequência da cada vez maior capacidade de geração intermitente», permitindo aos produtores e consumidores corrigir as diferenças entre aquilo que tinham previsto e aquilo que efetivamente produzem ou consomem.

O SRAD desempenha uma função semelhante do lado da procura, mas é reservado para situações em que os restantes recursos não permitem manter o nível de reserva considerado necessário pelo operador.

A frequência recente dessas ativações levanta, assim, a pergunta: por que razão um mecanismo que o próprio operador descreve como destinado a «casos pontuais» teve de ser utilizado três vezes em menos de um mês?

Essa questão ganha especial relevância depois do apagão de 28 de abril de 2025, que deixou grande parte da Península Ibérica sem eletricidade.

Fontes:

THE OBJECTIVE, «Pánico en Red Eléctrica a un nuevo apagón con el precio de la luz por las nubes», 15 de agosto de 2026

Red Eléctrica, «El servicio de respuesta activa de la demanda contará con 1.775 MW para el segundo semestre del año», 28 de maio de 2026

OMIE, Relatório mensal do mercado elétrico, julho de 2026

OMIE, mercado diário de 15 de agosto de 2026

Vozpópuli, dados e declarações sobre a ativação do SRAD de 11 de agosto de 2026

Ver também:

Apagão Ibérico: Relatório expõe dependência excessiva de energias solar e eólica – The Blind Spot

Governo espanhol: Jornalistas devem associar calor a alterações climáticas e a emoções negativas – The Blind Spot

Cheias de Valência: Estudo não encontra aumento na frequência de chuvas extraordinárias em Espanha – The Blind Spot

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