Filipe Froes alegou que duas mortes associadas ao sarampo ocorridas nos Estados Unidos eram “perfeitamente evitáveis”, relacionando-as com a ausência de vacinação. Sabe-se agora que também a segunda vítima não tinha idade para receber a vacina. A criança sofria de uma doença genética grave e, segundo o médico-legista, tinha uma esperança de vida muito reduzida. Apesar de ter sido informado de que a causa de morte oficial não foi o sarampo e da idade da primeira vítima, e de terem entretanto sido divulgados novos dados sobre a segunda, Filipe Froes mantém a publicação acessível no Facebook, sem qualquer retificação.
Filipe Froes apresentou, a 25 de agosto, os dois casos como «as duas primeiras mortes por sarampo nos EUA em 2026». Acrescentou que as vítimas não estavam vacinadas e concluiu que as mortes eram «perfeitamente evitáveis pela vacinação».
Os elementos clínicos agora conhecidos tornam ainda mais evidente o caráter enganador da publicação. O médico-legista atribuiu apenas uma das duas mortes ao sarampo. Além disso, nenhum dos bebés tinha idade para receber a vacina que, segundo Froes, teria tornado as mortes «perfeitamente evitáveis».
Na sua publicação no Facebook, o pneumologista transformou uma associação epidemiológica ainda sob investigação numa conclusão causal. O comunicado oficial da Pensilvânia não anunciou duas mortes causadas pelo sarampo. Classificou-as como «measles-associated deaths» (mortes associadas ao sarampo).
Segundo o Departamento de Saúde da Pensilvânia, esta classificação é utilizada quando existe evidência laboratorial ou epidemiológica de sarampo, mesmo que a doença não seja considerada pelo médico certificador ou pelo legista como causa imediata da morte. Não demonstrava, por si só, que o vírus tivesse causado as mortes ou contribuído para elas.
Causas de morte e contexto
Os dados que as autoridades da Pensilvânia recusaram inicialmente divulgar, invocando a privacidade, acabaram por mostrar que ambas as vítimas eram bebés do condado de Lancaster.
A primeira era um rapaz recém-nascido, que morreu a 14 de agosto, pouco depois do parto. Um teste realizado após a morte detetou sarampo, adquirido antes do nascimento, segundo o médico-legista.
Contudo, o médico-legista Stephen Diamantoni atribuiu a morte a uma laceração do baço. O patologista forense responsável pela autópsia não considerou que a lesão estivesse relacionada com o sarampo e não encontrou um aumento do baço, segundo as declarações recolhidas pelo Philadelphia Inquirer.
A origem da laceração permaneceu sob investigação. O dado essencial, porém, não mudou: o médico-legista não classificou este caso como uma morte causada pelo sarampo.
A segunda vítima era uma menina de seis semanas, nascida em julho e falecida em casa a 18 de agosto. Neste caso, Diamantoni concluiu que a infeção por sarampo causou a morte, segundo as declarações do médico-legista divulgadas pelo Centro de Investigação e Política de Doenças Infeciosas da Universidade do Minnesota da Universidade do Minnesota.
O bebé que morreu de sarampo tinha uma doença genética grave
Os dados recentes revelam que a menina de seis semanas sofria de microcefalia letal de tipo Amish, uma doença genética rara caracterizada por uma cabeça anormalmente pequena e por um desenvolvimento cerebral severamente comprometido.
Segundo o médico-legista, a criança foi colocada em cuidados paliativos logo após o nascimento. Segundo Diamantoni, as crianças com esta condição vivem habitualmente apenas cinco ou seis meses e apresentam elevada vulnerabilidade a infeções respiratórias.
O médico-legista afirmou que a morte não era inesperada, embora tenha identificado o sarampo como a doença que a causou. Não se sabe se a infeção ocorreu antes ou depois do nascimento.
A existência desta doença genética constitui um elemento clínico essencial para avaliar a afirmação de que a morte era «perfeitamente evitável». A criança apresentava uma doença grave, com prognóstico muito limitado e elevada vulnerabilidade a qualquer infeção respiratória.
Omitir este contexto produz uma imagem incompleta do caso e apresenta como certo um resultado hipotético que os dados individuais não demonstram.
Nenhum dos bebés podia receber a vacina
A descrição das duas crianças como «não vacinadas» é formalmente verdadeira, mas omite o dado mais importante: nenhuma era elegível para receber a vacina MMR.
O esquema oficial do CDC recomenda a primeira dose de rotina entre os 12 e os 15 meses. Em circunstâncias especiais, como viagens internacionais ou surtos, as autoridades podem recomendar uma dose antecipada entre os seis e os 11 meses.
Uma das vítimas morreu pouco depois de nascer. A outra tinha seis semanas. Ambas estavam muito abaixo da idade mínima de seis meses prevista até para a vacinação antecipada.
O estado vacinal das vítimas não resultava, portanto, de uma recusa individual, de hesitação vacinal ou de incumprimento do calendário. As crianças não estavam vacinadas porque ainda não podiam estar.
No primeiro caso, o sarampo nem sequer foi identificado como causa da morte e no segundo, a vítima sofria de uma doença genética grave e que, segundo o próprio médico-legista, conduz tipicamente a que “a maioria dessas crianças morra como resultado de uma qualquer infeção respiratória”.
Classificar as vítimas apenas como «não vacinadas», sem esclarecer que ainda não podiam receber a vacina, sugere uma escolha que não existiu.
Informações enganosas confirmadas
Deste modo, a atualização torna os erros objetivamente verificáveis:
- Não foram confirmadas duas mortes causadas pelo sarampo.
- Uma das mortes foi causada por uma laceração do baço.
- A criança que morreu de sarampo tinha uma doença genética grave, encontrava-se em cuidados paliativos e tinha um prognóstico habitual de sobrevivência de apenas cinco ou seis meses.
- Nenhuma das vítimas tinha idade para receber a vacina MMR.
- Os dados tornados públicos não permitem classificar as duas mortes como «perfeitamente evitáveis pela vacinação».
Antes da publicação do primeiro artigo, o The Blind Spot enviou a Filipe Froes os dados então conhecidos e perguntou-lhe se pretendia corrigir a publicação. O pneumologista não respondeu e, à data desta atualização, a publicação permanecia acessível e sem qualquer retificação visível.
Fontes
Comunicado do Departamento de Saúde da Pensilvânia
Declarações do médico-legista sobre o recém-nascido
Conclusão do médico-legista sobre a segunda vítima
Recomendações do CDC para a vacina MMR
