Filipe Froes apresenta como «perfeitamente evitável» morte de recém-nascido que não podia ser vacinado

Fonte: Recorte de RTP, «Filipe Froes», Grande Entrevista, episódio 4, 26 de janeiro de 2022. https://www.rtp.pt/play/p9766/e595014/grande-entrevista

O pneumologista voltou a divulgar informação enganadora nas redes sociais ao apresentar como mortes «por sarampo» dois óbitos que as autoridades classificaram apenas como «associados ao sarampo». Uma das vítimas era um recém-nascido, sem idade para ser vacinado, cuja morte o legista atribuiu a uma laceração do baço, sem considerar o sarampo um fator contributivo. Sobre a segunda vítima, as autoridades continuam a ocultar os dados clínicos necessários para verificar a alegação.

Filipe Froes anunciou no Facebook, a 25 de agosto, «as duas primeiras mortes por sarampo nos EUA em 2026». Acrescentou que ambas ocorreram em pessoas não vacinadas e concluiu que se tratava de mortes «perfeitamente evitáveis pela vacinação».

Filipe Froes – As duas primeiras mortes por sarampo nos EUA em… | Facebook 

A publicação mistura dados epidemiológicos verdadeiros com duas conclusões que os dados conhecidos não sustentam: que as duas pessoas morreram de sarampo e que as duas mortes teriam sido evitadas pela vacinação. No caso do bebé, esta última afirmação é especialmente enganadora, porque a criança ainda não tinha idade para receber a vacina.

Diferença entre «mortes associadas ao sarampo» e «mortes por sarampo»

O comunicado original do Departamento de Saúde da Pensilvânia, publicado a 25 de agosto, não anunciou duas mortes devido a sarampo. A expressão usada foi «measles-associated deaths», ou seja, mortes associadas ao sarampo.

Uma associação significa que existia evidência laboratorial ou epidemiológica de infeção num falecido. Não demonstra, isoladamente, que o vírus tenha causado a morte ou contribuído para ela.

No dia seguinte, o próprio Departamento de Saúde esclareceu publicamente que usa a classificação quando existe evidência laboratorial ou epidemiológica de sarampo, mesmo que a doença possa não ser considerada pelo médico certificador ou pelo legista como a causa imediata da morte.

Desse modo, o comunicado epidemiológico explicita claramente a diferença entre associação e causalidade.

Ora, foi precisamente essa conversão que Froes fez. Na sua publicação no Facebook, eliminou a qualificação usada pela fonte oficial e escreveu «mortes por sarampo». Ao mesmo tempo, reconheceu que, naquela data, se desconheciam outros dados sobre as vítimas. A conclusão categórica contradiz, portanto, a própria falta de informação admitida pelo autor.

Em 30 de agosto, o próprio CDC decidiu não incluir as duas mortes na contagem nacional, declarando que não estava estabelecido se o sarampo causou ou contribuiu para os óbitos. Esta posição mantém-se a 2 de setembro. 

O bebé morreu de uma laceração do baço

Os dados que se tornaram públicos no dia seguinte agravaram o problema. Segundo o médico-legista do condado de Lancaster, Stephen Diamantoni, uma das vítimas era um recém-nascido que morreu pouco depois do parto. O bebé teve um teste pós-morte positivo para sarampo e terá adquirido a infeção antes de nascer.

No entanto, a causa de morte identificada foi uma laceração do baço, com hemorragia maciça. Wayne Ross, o patologista forense que realizou a autópsia, não considerou o sarampo um fator contributivo, segundo as declarações do legista reunidas pelo Philadelphia Inquirer.

O sarampo foi incluído numa segunda parte da certidão de óbito, mas Diamantoni afirmou que a referência servia para dar uma visão mais ampla do estado de saúde e que não considerava a infeção contributiva. A origem da laceração continuava sob investigação.

O recém-nascido não podia receber a vacina

A frase «perfeitamente evitáveis pela vacinação» é ainda menos defensável quando aplicada à criança.

O esquema de rotina dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, CDC, recomenda a primeira dose da vacina MMR entre os 12 e os 15 meses. Em situações especiais, como viagens ou surtos, pode ser dada uma dose antecipada entre os seis e os 11 meses. O CDC não recomenda a vacina a bebés com menos de seis meses.

Um recém-nascido não estava apenas «não vacinado». Não era elegível para ser vacinado. Usar o seu estado vacinal como se representasse uma escolha recusada ou uma falha individual cria uma associação enganadora.

A segunda vítima continua escondida atrás de uma conclusão oficial

Sobre a outra pessoa, não foi divulgado praticamente nada. O Departamento de Saúde afirmou que ambas as vítimas eram residentes no condado de Lancaster, não vacinadas e com teste positivo para sarampo. Invocando a privacidade, recusou fornecer idade, sexo, causa imediata e causa subjacente de morte, complicações clínicas, comorbilidades ou intervalo entre infeção e óbito.

Um padrão anterior de exagero e falta de transparência

O episódio não surge isolado. Em junho, uma análise do The Blind Spot mostrou que Froes afirmou, num podcast do Observador, que três doses de vacina contra a covid-19 reduziriam o risco de covid longa em 80% a 85%, e quatro doses em 90% a 95%.

O estudo sueco que aparentemente servia de referência, publicado na BMJ, encontrou reduções relativas de 21% após uma dose, 59% após duas e 73% após três ou mais. Não analisou quatro doses separadamente e não sustentava os valores apresentados por Froes.

Em janeiro, outra investigação do The Blind Spot comparou com dados do INE e do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias a afirmação, difundida pela RTP a partir de declarações de Froes, de que morriam 29 pessoas por dia com pneumonia em Portugal. Os dados oficiais disponíveis apontavam para uma média próxima de 14 e a própria Sociedade Portuguesa de Pneumologia estimava 16.

Existem também conflitos de interesse relevantes para avaliar declarações públicas sobre vacinas e doenças respiratórias. A Plataforma de Transparência e Publicidade do Infarmed regista pagamentos da indústria a profissionais e entidades de saúde. Uma análise das declarações de 2021 a 2025 encontrou 42.664 euros pagos pela Pfizer e pela AstraZeneca a Filipe Froes ou à sociedade Terras & Froes, por palestras, consultoria, conselhos consultivos e participação em eventos.

Em 2025, a Hipra pagou 1.230 euros pela participação de Froes num conselho consultivo da BIMERVAX, a vacina contra a covid-19 comercializada pela empresa. A mesma farmacêutica surge em mais três declarações relativas a atividades de Froes, num total próximo dos 4,9 mil euros. Posteriormente, o médico participou num podcast do Observador patrocinado pela Hipra sobre vacinação e covid-19, sem que essas relações fossem comunicadas de forma clara ao público, como documentado nesta investigação.

Já antes disso, inúmeras investigações revelaram outras informações falsas ou enganosas transmitidas por Filipe Froes e a sua forte relação profissional e financeira com grandes farmacêuticas.

Contacto com Filipe Froes

O The Blind Spot contactou por email Filipe Froes para lhe fornecer os dados que contradizem as suas alegações e questionar sobre as fontes utilizadas e se pretendia corrigir a publicação. Até ao encerramento deste artigo, Filipe Froes não respondeu às perguntas enviadas. 

Ver também:

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