Os graves conflitos de interesse entre médicos e farmacêuticas não são exclusivos de Portugal. Uma investigação do BMJ expõe o conflito de interesses de Kim Fox, antigo presidente da Sociedade Europeia de Cardiologia: o cardiologista ajudou a recomendar e promover a ivabradina enquanto ele e a mulher receberam mais de 50 milhões de libras através de uma empresa envolvida nos ensaios do fármaco. Dois grandes ensaios posteriores não demonstraram benefício nos principais desfechos clínicos, e um identificou maior risco de morte cardiovascular ou enfarte num subgrupo de doentes.
A sobreposição entre interesses financeiros, investigação clínica e recomendações médicas está no centro de uma investigação do BMJ, publicada a 26 de agosto deste ano.
O protagonista, Kim Fox, presidiu à Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), presidiu ao grupo responsável pelas recomendações europeias de 2006 que incluíram a ivabradina para determinados doentes com angina e promoveu publicamente o medicamento. Simultaneamente, era administrador e acionista de uma empresa contratada para participar nos ensaios do mesmo fármaco.
O caso expõe um problema que ultrapassa os pagamentos: quem tinha autoridade para interpretar os resultados e orientar os médicos beneficiava também de uma relação comercial com o fabricante.
Ensaios sem o benefício esperado e sinais de risco
Em 2008, o ensaio BEAUTIFUL não demonstrou que a ivabradina reduzisse significativamente o seu desfecho principal, que combinava morte cardiovascular e internamento por enfarte ou insuficiência cardíaca.
Apesar disso, Fox apresentou publicamente o medicamento como o «padrão-ouro» dos fármacos antianginosos e anti-isquémicos.
Em 2014, o ensaio SIGNIFY voltou a não demonstrar benefício no desfecho principal, composto por morte cardiovascular ou enfarte não fatal. No subgrupo de doentes com angina que limitava a atividade, observou-se um aumento do risco combinado de morte cardiovascular ou enfarte não fatal.
A Agência Europeia de Medicamentos reviu então o fármaco e introduziu restrições de utilização, destinadas a reduzir os riscos cardíacos.
O medicamento não foi retirado e mantém indicações autorizadas para determinados doentes. Contudo, os resultados destes dois ensaios não demonstraram benefício nos objetivos clínicos principais avaliados.
Ainda assim, especialistas ouvidos pelo BMJ contestam o lugar atribuído ao fármaco. Aroon Hingorani, especialista em farmacologia clínica da University College London, considerou que os riscos ultrapassam os benefícios.
Dezenas de milhões por detrás das declarações de interesses
Entre 2006 e 2015, Fox e Karen Summers, antiga executiva da indústria farmacêutica, receberam mais de 50 milhões de libras através da Heart Research Limited.
Fox e Summers eram os administradores e únicos acionistas desta empresa britânica de investigação por contrato, envolvida em pelo menos três ensaios da ivabradina, fabricada pela Servier.
A maior parte do dinheiro chegou através de dividendos e distribuições aos acionistas. Mais de 33 milhões de libras foram distribuídos com a liquidação da empresa, em 2015.
Em 2006, Fox presidiu ao grupo que recomendou a ivabradina como alternativa para doentes que não tolerassem bloqueadores beta. A Heart Research já participava então no ensaio BEAUTIFUL, financiado pela Servier.
As diretrizes referiam que os autores tinham declarado os interesses, mas não publicavam os formulários. A consulta dependia de um pedido escrito ao presidente da ESC, cargo assumido por Fox nesse ano.
O BMJ encontrou referências à Servier na maioria das publicações de Fox examinadas. Porém, as revistas não exigiam os montantes. Declarar uma ligação à farmacêutica não permitia ao leitor conhecer a escala financeira do conflito.
O Imperial College e as perguntas sem resposta
Fox foi professor de cardiologia clínica no National Heart and Lung Institute do Imperial College London e dirigiu o instituto entre 2011 e 2018. Entre 2011 e 2015, o exercício desse cargo coincidiu com parte do período em que o casal recebeu pagamentos através da Heart Research.
A afiliação ao Imperial College constava das publicações sobre a ivabradina. Não era um pormenor: identificava a instituição académica de um investigador que participava em estudos usados para fundamentar decisões clínicas.
O perfil institucional consultado apresenta Fox como professor emérito e destaca a sua participação em ensaios como BEAUTIFUL e SIGNIFY. Não menciona a conclusão do comité de ética da ESC, que, em março de 2025, considerou que Fox violara gravemente as suas obrigações éticas.
Questionado pelo BMJ, o Imperial College recusou comentar o caso. Esclareceu apenas que o título de professor emérito é honorífico e não remunerado e que a sua atual política de conflitos de interesses foi introduzida em 2011.
Essa resposta não esclarece como o Imperial College avaliou os interesses financeiros de Fox durante o período em que dirigiu o instituto. A universidade conhecia a dimensão dos seus interesses financeiros? Avaliou-os? Abriu uma investigação?
Thomas Lüscher, presidente da ESC, afirmou ter informado a direção do Imperial College. O artigo não apresenta, contudo, respostas da universidade sobre essas questões.
Escrutínio tardio e medidas sem anúncio público
Foi um documentário da televisão dinamarquesa TV 2, transmitido em setembro de 2024, que desencadeou a investigação interna da ESC.
Uma revisão científica considerou apropriadas as recomendações de 2006 e não encontrou provas de favorecimento da ivabradina. No entanto, na avaliação da conduta de Fox, o comité de ética concluiu que não cumprira as suas obrigações éticas ao não se afastar perante um conflito significativo.
Fox rejeitou a conclusão, afirmou ter declarado os interesses exigidos e contestou a aplicação retroativa de regras mais recentes.
Fox renunciou à qualidade de membro da ESC. A sociedade declarou-o inelegível para readmissão e para participar como orador nos seus eventos, retirando-lhe também a medalha de ouro atribuída em 2008. A ESC não anunciou as medidas por iniciativa própria, tendo prestado esclarecimentos em resposta a perguntas de jornalistas.
Um problema recorrente entre médicos e farmacêuticas
O montante torna este caso excecional. A presença de conflitos financeiros na elaboração de recomendações médicas, porém, está longe de ser rara.
Um estudo de 2021 analisou cinco diretrizes da ESC. Em quatro, pelo menos 80% dos autores tinham conflitos financeiros relevantes. Nos estudos patrocinados pela indústria incluídos nessa análise, a proporção de autores com relações financeiras com o patrocinador variava entre 55% e 90%.
No caso Fox, a investigação, os interesses comerciais e a influência sobre as recomendações cruzaram-se durante anos. Os resultados desfavoráveis não impediram a promoção pública do medicamento, e a dimensão financeira da relação permaneceu pouco visível.
O caso mostra também a distância entre declarar uma ligação à indústria e permitir um escrutínio efetivo sobre quem investiga, recomenda e beneficia financeiramente dos medicamentos.
Fontes:
Agência Europeia de Medicamentos: riscos e restrições da ivabradina
Imperial College London: perfil institucional de Kim Fox
Ver também:
Agência Europeia de Medicamentos
