Entre 2023 e 2025, 34 sociedades médicas portuguesas receberam, pelo menos, 20 milhões de euros em pagamentos declarados pela indústria farmacêutica. Cardiologia, Medicina Interna e Pneumologia concentram quase metade deste montante. Entre as atividades patrocinadas estão, por exemplo, congressos, reuniões científicas e formações. No entanto, cerca 25% dos apoios têm descrições genéricas ou sem finalidade identificada. Esta relação financeira levanta questões sobre a independência de instituições que participam na definição de recomendações clínicas e políticas de saúde.
Uma investigação do The Blind Spot, baseada nos registos da plataforma de transparência do INFARMED, identificou 20.051.936 euros em pagamentos da indústria farmacêutica a 34 sociedades médicas portuguesas, entre 2023 e 2025.
O apuramento resulta da análise e consolidação de 2.312 registos de pagamentos classificados como «Medicamentos», com identificação dos beneficiários, valores, empresas financiadoras e descrições das atividades apoiadas.
A distribuição anual foi relativamente estável: 6.86 milhões em 2023, 6.75 milhões em 2024 e 6.43 milhões em 2025. A soma exata dos registos corresponde a 20.051.936,13 euros.
Cardiologia, Medicina Interna e Pneumologia concentram quase metade dos pagamentos
A Sociedade Portuguesa de Cardiologia destaca-se como a maior beneficiária, com 3,37 milhões de euros, seguida da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, com 3,13 milhões, e da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, com 2,41 milhões.
Em conjunto, estas três sociedades receberam aproximadamente 8,9 milhões de euros, equivalentes a 44,4% dos pagamentos identificados.
A Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo surge na quarta posição, com 1,35 milhões de euros, seguida da Sociedade Portuguesa de Oncologia, com 1,16 milhões.
As dez sociedades com maiores pagamentos entre 2023 e 2025

Fonte: Plataforma – Transparência e Publicidade
Estes valores representam pagamentos declarados às instituições e não montantes recebidos pessoalmente pelos respetivos presidentes ou restantes dirigentes.
Também não devem ser interpretados como lucros ou receitas líquidas, uma vez que parte dos pagamentos pode corresponder ao financiamento de despesas com atividades científicas e organização de eventos.
Em 2025, Cardiologia e Pneumologia lideraram os apoios
A análise do ano mais recente confirma a dimensão das relações financeiras destas instituições com a indústria farmacêutica.
Em 2025, a Sociedade Portuguesa de Cardiologia recebeu 1,04 milhões de euros, enquanto a Sociedade Portuguesa de Pneumologia recebeu cerca de 957 mil euros.
A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna surge na terceira posição, com 918 mil euros.
Os dez maiores beneficiários em 2025

Fonte: Plataforma – Transparência e Publicidade
Só as três primeiras sociedades receberam 2,92 milhões de euros em 2025, aproximadamente 45% do montante identificado nesse ano.
Estes pagamentos não representam, necessariamente, financiamento de atividades realizadas exclusivamente em 2025, uma vez que a data da declaração e a data da atividade financiada podem não coincidir.
O que pagam as farmacêuticas às sociedades médicas?
A análise das descrições dos 2.312 pagamentos permite identificar as principais atividades associadas ao financiamento da indústria farmacêutica.
Os congressos, jornadas e reuniões científicas constituem a categoria predominante.
Distribuição dos pagamentos por tipo de atividade

Fonte: Plataforma – Transparência e Publicidade
Aproximadamente dois terços dos montantes identificados estão associados a congressos, jornadas e reuniões científicas.
Entre os exemplos encontrados estão pagamentos destinados a congressos nacionais das sociedades de Cardiologia, Pneumologia e Medicina Interna, bem como reuniões de especialidades, cursos de atualização e eventos científicos.
Estes apoios podem financiar espaços de exposição, inscrições, participação em eventos, atividades científicas, materiais ou outras contrapartidas previstas nos acordos de patrocínio.
No entanto, as declarações nem sempre permitem identificar com precisão a natureza dos serviços prestados.
Cerca de 1,81 milhões de euros surgem associados a descrições genéricas de patrocínios e apoios. Outros 3,14 milhões foram incluídos na categoria de descrições não classificadas, por não ser possível determinar automaticamente uma finalidade suficientemente específica.
Isto significa que, para aproximadamente um quarto do montante total, a classificação realizada não permite estabelecer com segurança a natureza da atividade financiada.
Sociedades financiadas pela indústria também participam no debate público
A importância destas relações financeiras ultrapassa a organização de congressos.
Os dirigentes das sociedades médicas são frequentemente convidados pela comunicação social para comentar estudos científicos, novas terapêuticas, epidemias, campanhas de vacinação e decisões das autoridades de saúde.
Quando um presidente ou representante de uma sociedade científica se pronuncia publicamente sobre determinado medicamento ou política de vacinação, a autoridade associada ao cargo confere especial credibilidade às suas declarações.
A Sociedade Portuguesa de Pneumologia constitui um exemplo da relevância destas intervenções no debate sobre vacinação e doenças respiratórias.
Os seus representantes têm participado publicamente em iniciativas de sensibilização e na discussão de estratégias de prevenção das doenças respiratórias.
Conflitos de interesse: uma questão de independência e transparência
Estas relações não provam que as recomendações sejam sempre enviesadas em favor dos financiadores, mas colocam questões relevantes:
Como são selecionados os especialistas responsáveis pelas recomendações? Que interesses financeiros são declarados? Existem regras que impeçam profissionais com determinados conflitos de votar em decisões específicas? Os financiadores têm alguma intervenção na escolha dos conteúdos de congressos e ações de formação?
A transparência deve igualmente abranger a comunicação social.
Quando dirigentes de sociedades médicas comentam publicamente medicamentos ou campanhas de vacinação, é relevante saber se existem relações financeiras institucionais ou pessoais relacionadas com os produtos discutidos.
Essa informação permite ao público avaliar melhor o contexto das declarações, sem substituir a necessária análise científica do seu conteúdo.
O INFARMED não forneceu os dados solicitados pelo The Blind Spot
A investigação foi também condicionada pelas dificuldades de obtenção e tratamento da informação.
O The Blind Spot solicitou ao INFARMED os dados necessários para analisar de forma sistemática os pagamentos declarados pela indústria farmacêutica.
A autoridade do medicamento não forneceu os ficheiros solicitados, apesar de os pagamentos se encontrarem individualmente disponíveis para consulta na sua plataforma pública.
Perante esta situação, o The Blind Spot teve de desenvolver um processo próprio de recolha dos registos, extraindo a informação disponibilizada nas páginas da plataforma.
Os dados recolhidos foram posteriormente organizados por ano, entidade financiadora, beneficiário, montante e descrição do pagamento.
A análise revelou dificuldades adicionais, nomeadamente a utilização de diferentes designações para a mesma sociedade médica, a ausência de números de identificação fiscal nos ficheiros recolhidos e a inexistência de um identificador único que permitisse verificar automaticamente possíveis declarações repetidas.
Foi necessário proceder à normalização dos nomes e à comparação das instituições identificadas com referências institucionais, incluindo a documentação da Ordem dos Médicos.
A própria plataforma do INFARMED foi criada para dar cumprimento às obrigações legais de transparência previstas no artigo 159.º do Estatuto do Medicamento.
O INFARMED esclarece que as informações publicadas resultam de declarações submetidas pelas entidades abrangidas, sendo estas responsáveis pelo respetivo conteúdo.
A divulgação individual dos pagamentos constitui um mecanismo importante de transparência. No entanto, a dificuldade de obter os dados num formato consolidado e facilmente analisável limita a capacidade de jornalistas, investigadores e cidadãos avaliarem globalmente as relações financeiras entre a indústria farmacêutica e as instituições de saúde.
A situação levanta também a questão da disponibilização pública de dados estruturados, completos e reutilizáveis, que permitam analisar pagamentos por empresa, beneficiário, ano e finalidade sem necessidade de reconstruir manualmente milhares de declarações.
Os números poderão não refletir todo o financiamento
Os 20,05 milhões de euros identificados não representam necessariamente a totalidade dos apoios disponibilizados pela indústria às sociedades médicas portuguesas.
A investigação adotou critérios restritivos.
Foram considerados apenas os pagamentos classificados como «Medicamentos», excluindo os relacionados com dispositivos médicos.
Foram também excluídas organizações cuja natureza de sociedade médica não foi suficientemente confirmada, bem como associações profissionais, grupos científicos autónomos e outras entidades que podem beneficiar de financiamentos destinados a atividades médicas.
Não foram contabilizados os pagamentos efetuados diretamente a médicos, incluindo dirigentes destas sociedades, nem os recebidos através de empresas que lhes possam pertencer.
Também não foram acrescentados os apoios eventualmente canalizados através de organizadores externos de congressos ou outras entidades intermediárias.
Assim, existem razões para admitir que o universo mais amplo de financiamento associado às atividades destas organizações seja superior ao montante identificado.
A auditoria realizada identificou 34 grupos de sociedades médicas e reconciliou 2.312 registos, mas o valor permanece sujeito a validação documental adicional.
Por conseguinte, o montante deve ser descrito como financiamento identificado e não como total certificado de todos os apoios efetivamente recebidos.
Quem fiscaliza a independência das sociedades científicas?
A investigação demonstra a existência de relações financeiras de dimensão significativa entre a indústria farmacêutica e algumas das principais sociedades médicas portuguesas.
Só as sociedades de Cardiologia, Medicina Interna e Pneumologia receberam quase 8,9 milhões de euros em três anos.
Estas organizações têm funções relevantes na formação dos médicos, na divulgação de conhecimentos científicos e no debate público sobre a utilização de medicamentos e a organização dos cuidados de saúde.
A importância destas funções torna especialmente necessária a transparência dos respetivos financiamentos.
Num setor em que as recomendações podem influenciar a utilização de medicamentos por milhões de pessoas e envolver despesas públicas de grande dimensão, a transparência sobre estes financiamentos deve ser uma exigência elementar.
O facto de alguns seus dirigentes em representação destas sociedades terem um historial de propagação de informações falsas ou distorcidas, e em sintonia com os interesses financeiros dos seus financiadores, torna esse escrutínio fundamental.
Fontes:
INFARMED, Plataforma de Transparência e Publicidade. Registos de 2023, 2024 e 2025 analisados pelo The Blind Spot.
Ordem dos Médicos, documentação sobre sociedades científicas.
DGS, Norma n.º 005/2013, atualizada em 2025, sobre avaliação do risco cardiovascular.
Estatuto do Medicamento, Decreto-Lei n.º 176/2006.
Ver também:
Quase 40% dos médicos receberam pagamentos da indústria farmacêutica – The Blind Spot
Podcast Observador: Alegações enganosas e omissões favoráveis ao patrocinador – The Blind Spot
Podcast Observador: Publicidade encapotada e conflitos de interesse – The Blind Spot
Filipe Froes e GSK: conteúdo comercial levanta suspeitas de publicidade encapotada – The Blind Spot
