Correlação vs Causalidade — por que nem sempre o que parece é

A nossa evolução manifestou-se em grande parte na capacidade de encontrar padrões e tendências mesmo com pouca informação. Por um lado, isso permitiu-nos desenvolver formas de decidir rapidamente sem dispormos de informação completa (heurísticas). Por exemplo, quando guiamos um carro e tomamos centenas de decisões de modo automático.

Por outro lado, ajuda-nos a diminuir incertezas sobre questões complexas (ou para as quais não temos informação), prevenindo que nos consumamos a procurar explicações elaboradas sem termos dados suficientes. Por exemplo, quando antigamente atribuíamos a entidades divinas a responsabilidade por fenómenos que não compreendíamos (como relâmpagos).

Mas, além das vantagens óbvias, essa nossa tendência traz igualmente algumas limitações. Uma delas é tendermos a considerar que, se uma coisa aumenta ao mesmo tempo que outra (correlação), então é porque o aumento de uma provoca o aumento da outra (causalidade).

É verdade que quando existe uma correlação entre os fatores A e B, isso poderá significar que A causa B. No entanto, muitas vezes tal não se verifica, mesmo quando essa causalidade nos parece evidente.

Tal acontece com correlações positivas ou negativas (quando A aumenta, B diminui).

Coesão de grupo e desempenho

Numa dada equipa de futebol, realizaram-se inquéritos para aferir a coesão de grupo ao longo de uma época. Verificou-se que quando a coesão de grupo era alta o desempenho tendia igualmente a ser elevado (correlação positiva). Poderemos então depreender que a coesão de grupo aumenta o rendimento, certo?

Não necessariamente. Existem várias investigações que sugerem outras possibilidades quanto ao sentido da causalidade. Mas vejamos explicações possíveis:

  1. A coesão de grupo melhora (de facto) o rendimento.
  2. O rendimento melhora a coesão de grupo.
  3. Ambas hipóteses se verificam, existindo um efeito circular (feedback positivo).
  4. Existe uma variável que, quando aumenta, melhora tanto a coesão como o rendimento. Por exemplo, as horas de treino.
  5. Existem vários fatores que influenciam ambas as variáveis — número de estágios, treino coletivo, reuniões de grupo.
  6. Foi apenas uma correlação fruto do acaso. Sem grandes alterações nas outras variáveis, em épocas seguintes as duas dimensões podem não apresentara correlações significativas.

Correlação sem causalidade

Esta fragilidade torna-nos muito suscetíveis a manipulações e à interiorização de “falsas verdades”. Ideias pré-concebidas ou largamente difundidas acentuam o efeito e fazem-nos cair no viés da confirmação.

Podemos dar vários exemplos:

  • Uma marca que associa o rendimento de um desportista à utilização de determinado material desportivo quando, provavelmente, outros fatores como o treino são mais decisivos.
  • Um político que afirma que o bom desempenho económico do país foi resultado das suas políticas, quando outros fatores foram mais determinantes (p. ex. crescimento regional, reformas anteriores, fatores conjunturais).
  • Alguém que propõe produtos ou práticas terapêuticas que parecem eficazes mas que, quando escrutinadas por investigação científica de qualidade, não demonstram qualquer resultado.
  • Um líder político que justifica com diferenças genéticas o maior número de crimes cometidos por representantes de uma dada etnia. Muitas vezes, no entanto, as diferenças resultam de problemas sociais específicos nesse grupo, ou simplesmente esses crimes ocorrem principalmente em estratos sociais em que essa etnia está mais representada.
  • Um ativista que associa a reduzida representação de um grupo étnico ou de género em determinadas profissões bem remuneradas a uma discriminação generalizada, sem considerar outras variáveis como a percentagem relativa de interessados nessas funções ou um nível de desempenho médio inferior nesse grupo.

De facto, determinar a causalidade é mais complexo do que parece e nem sempre é possível fazê-lo com exatidão. A realidade apresenta, normalmente, relações mais complexas do que tendemos a percecionar.

Para não cairmos nesse erro de raciocínio, é importante evitarmos conclusões apressadas — mesmo que pareçam lógicas — e colocarmos sempre outras hipóteses possíveis. Só assim podemos evitar sermos enganados por outros ou pelas nossas próprias intuições.

Correlação não significa Causalidade!

Nota: Este artigo foi revisto no dia cinco de Setembro de 2025.

Referências:

Group Cohesiveness: Meaning and Its Consequences, Khushboo Sinha 

Psychology. Iresearchnet. Cohesiveness

Viés de confirmação. Wikipédia 

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