Data center in Loudon County Virginia. Credit Hugh Kenny.

Estive há uns dias a conversar com um jovem engenheiro informático sobre a IA. Eu já tinha as ideias mais ou menos assentes sobre o tema e recolhido muita informação, mas quis ouvir a opinião de alguém mais novo para contrabalançar o meu pessimismo. Estranhamente, as preocupações deste jovem foram praticamente no mesmo sentido das minhas (o que alivia um pouco o meu receio de estar desactualizada nestas coisas da tecnologia)  

Entretanto, fui anotando factos lidos na imprensa que achei particularmente assombrosos, a ponto de pensar que “isto não pode ser verdade” e ir verificar várias vezes a sua veracidade. São sete. 

  1. O CEO da OpenAI, Sam Altman, diz que teme que a IA venha um dia a ser controlada por um pequeno número de empresas, modelos ou pessoas, deixando a vasta maioria dos utilizadores sem voz sobre a forma como a tecnologia molda o mundo. Ora, aparentemente isso já está a acontecer. Annie Jacobsen, uma jornalista norte‑americana especializada em temas de segurança nacional e tecnologia militar, após uma reunião que teve recentemente com responsáveis da DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) afirmou que “Os diretores executivos destas empresas de IA têm mais poder… do que o Departamento de Defesa.” Segundo ela, são os oligarcas da tecnologia, e não os representantes eleitos, que estão agora a comandar o futuro dos Estados Unidos.
  2.  O português José Maria Bettencourt denunciou a utilização excessiva da IA nos textos que os deputados e as altas figuras do Estado leram na cerimónia do 25 de Abril deste ano e até na nota de pesar que o presidente da República emitiu a propósito do falecimento de Luís Represas. Diz o autor que “O cenário é catastrófico. Se um político já nem se dá ao trabalho de escrever um texto para uma das cerimónias mais importantes do ano, ou se já nem consegue pensar num conjunto de palavras para construir uma nota de pesar, estaremos muito longe da transferência das suas inquietações (e decisões, acrescento eu) para estes chatbots?
  3. Os Estados Unidos abrigam mais de 4.000 data centers (ou centros de dados) – mais do que qualquer outro país. Nos EUA, a Virgínia possui mais data centers do que qualquer outro estado – mais de 600. Em 2023, os centros de dados da Virgínia consumiram cerca de 26% do total de eletricidade deste estado. Agora,deve ser muito mais. Os centros de dados precisam de grandes quantidades de água para arrefecer os seus servidores. As pequenas cidades e vilas americanas onde estes centros se instalaram estão à beira de insurreições populares devido à falta de água e cortes constantes no abastecimento de eletricidade. 
  4. Projeta-se que no mundo consumam entre 4,2 e 6,6 mil milhões de metros cúbicos de água anualmente até 2027. 
  5. À medida que os centros de dados aumentam a procura de eletricidade e água, eles exercem pressão sobre os preços destes dois serviços cobrados à população em geral. Esses custos mais altos são pagos por todos os consumidores, mas colocam um fardo maior sobre as famílias em dificuldades económicas. Só os centros de dados da Amazon consumiram a impressionante quantidade de 9,46 mil milhões de litros de água em 2025, um volume equivalente a cerca de 3.800 piscinas olímpicas. Um relatório da ONU destaca que o consumo global de água pela IA poderá atingir 9,3 biliões de litros por ano até 2030, o suficiente para satisfazer as necessidades domésticas de água de 1,3 mil milhões de pessoas. Os grandes modelos de linguagem como ChatGPT e Claude são tão ávidos por recursos que as empresas de tecnologia estão a comprar cerca de 70% dos fornecimentos mundiais de memória de computador, causando escassez. Como resultado, os preços destes componentes estão a disparar, tornando os computadores muitíssimos mais caros.  
  6. Quando estiver totalmente concluído, o centro de dados da Start Campus em Sines, controlado por norte‑americanos e britânicos, poderá representar cerca de 20% do consumo total de eletricidade de Portugal. 
  7. Prevê-se que um projetado centro de dados de grande escala na periferia de Londres — o East Havering Data Centre Campus —, venha a gerar mais de um milhão de toneladas de dióxido de carbono, equivalente, por ano, a dezenas de milhares de voos transcontinentais.

O que é que tudo isto tem a ver connosco? Tem muito a ver.

As grandes empresas tecnológicas, especialmente as americanas, veem Portugal como um ótimo país para expandirem os seus centros de dados. Por duas razões (segundo elas): em primeiro lugar, a situação geográfica, pois é no nosso litoral que estão amarrados os cabos submarinos transatlânticos que transportam a informação da Internet entre continentes; segundo, o fácil acesso à energia, especialmente a energia renovável. 

Há uma terceira razão que eu julgo determinante para o seu interesse no nosso território: a “maleabiliabilidade” dos nossos políticos e a sua prontidão de satisfazer os requisitos das corporações norte-americanas (e não só). 

Para isso, o governo dispõe-se a ceder parte do território do país para instalar campos de painéis solares e turbinas eólicas. Este mês foi aprovado o chamado Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis, que cobre 147 municípios de Portugal continental, com maior concentração nas regiões de Alentejo, Ribatejo, Beira Interior e Algarve. Passando por cima de todos os Planos Diretores Municipais e do poder local, a área identificada e proposta deste programa é de 65 827 hectares. 

Não é preciso pensar muito para concluir que as enormes zonas a serem ocupadas por painéis solares e turbinas eólicas visam satisfazer o aumento do consumo de eletricidade por parte dos data centers (existentes e futuros). Só num destes locais, no Alentejo, a empresa chinesa Chint Solar prevê instalar mais de dois milhões de painéis solares. No Sudoeste Alentejano (Morgavel, Sines) milhares de sobreiros – espécie protegida por lei – estão a ser abatidos para dar lugar a um parque eólico, destinado a abastecer o centro de dados da Start Campus de Sines, levando à destruição irreversível de montados centenários e habitats raros. 

A propagação destes parques de painéis solares são o verdadeiro paradoxo do Green Deal: abatem-se dezenas de milhares de árvores para construir “projetos verdes”. 

O centro de dados em Sines não é um empreendimento português: foi criado para servir grandes empresas tecnológicas globais (Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud, entre outras)

O Governo actual está totalmente interessado em instalar centros de dados por todo o país, tendo já aprovado em Abril deste ano uma estratégia para “incentivar” e “transformar o país num polo competitivo e sustentável de data centers na Europa”. Portanto, não estamos a falar de algo distante no tempo, que pouco nos afecta. 

Em Portugal, só em 2026-2027, estão planeados mais de 20 novos data centers (entre os quais projetos da Merlin Edged, AtlasEdge e Digital Realty em Lisboa) com ligação antecipada garantida à rede elétrica, ou seja, o data center reserva capacidade elétrica antes de estar totalmente licenciado ou construído. Por outras palavras, a REN ou a E-Redes obrigam-se a expandir e a pagar previamente a geração de energia e a reservá-la para que estes data centers possam funcionar.  As consequências para as populações não são teóricas, mas muito reais. Lembremo-nos de uma simples lei económica: o aumento brusco da procura de um bem faz aumentar o preço desse bem. Há, pois, grande probabilidade de aumento das facturas de eletricidade para os consumidores. Em muitos municípios portugueses, as facturas da água quadruplicaram nos últimos meses. Não porque o consumo tenha aumentado, ou haja mais falta de água do que havia no ano passado, mas porque o governo (obedecendo cegamente a Bruxelas) inventou uma lei, a chamada Taxa de Gestão de Resíduos, taxa que as entidades gestoras de resíduos são obrigadas a pagar. Estas entidades enviam a factura às Câmaras Municipais e estas simplesmente fazem reflectir esse valor na conta da água dos moradores. A lei não obriga as câmaras a aumentar a tarifa da água ou dos resíduos mas é isso que, na prática, tem acontecido. 

Consumir água no valor de 10 euros e pagar 100 euros de factura de água é uma coisa difícil de aceitar. Alguém dirá que aumentar a taxa de resíduos não tem a ver com a IA. Talvez tenha: o aumento das facturas visa desincentivar o consumo de água.

A expansão da IA já está a mexer com a nossa carteira, obrigando-nos a pagar mais.

O jovem engenheiro com quem falei disse-me três coisas que retive: 

  • Não vale a pena protestar contra as grandes corporações de IA. Elas apenas procuram as suas vantagens e o seu lucro e, por enquanto, ainda dependem das leis aprovadas pelos governos. É a estes últimos que devemos pedir contas.  
  • Os data centers praticamente não criam emprego. Após a fase de construção, o número de trabalhadores é mínimo.
  • Pelo menos agora, as desvantagens da IA são superiores às vantagens. 

Acrescento dois últimos aspectos: 

Em Portugal, tal como em toda a Europa do Sul, sujeita a devastadores fogos florestais, ondas de calor, secas prolongadas e falta de água no Verão, não deveria ser autorizada a instalação de data centers de grandes empresas tecnológicas mundiais.

Tal como se viu pelos recentes acontecimentos nos países do Golfo (bombardeamento pelo Irão de três data centers da Amazon Web Services nos Emirados Árabes e no Bahrein), em caso de guerra, os data centers estão entre as infraestruturas críticas sujeitas a ataques. Eles são praticamente um chamariz para potências hostis que queiram causar danos às grandes corporações.

Não nos deixemos, pois, ir na conversa dos políticos que acenam entusiasticamente com grandes “investimentos” das corporações de IA. A única certeza que estes investimentos trarão é que os seus donos (e os políticos que os autorizam) ficarão mais ricos e nós – mais pobres. 

Cristina Mestre

cristinamestre922@gmail.com

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