A Agência Lusa alterou o título e o primeiro parágrafo de uma notícia que divulga informação falsa sobre as recomendações de vacinação contra o sarampo nos Estados Unidos, sem identificar publicamente a correção. A informação original foi reproduzida por vários órgãos de comunicação social, incluindo o Público e a RTP, e continua a circular nos principais jornais nacionais. A ausência de uma retificação pública identificável volta a levantar questões sobre o cumprimento dos deveres de rigor e transparência jornalísticos.
A Agência Lusa publicou, em 19 de setembro de 2025, uma notícia com o título «Governo dos Estados Unidos deixa de recomendar vacina contra sarampo».

Fonte: Lusa (retirado antes de alterações)
A informação era falsa. As autoridades norte-americanas não tinham deixado de recomendar a vacinação contra o sarampo a crianças com menos de quatro anos. A alteração decidida pelo Comité Consultivo sobre Práticas de Imunização (ACIP) dizia respeito à utilização da vacina combinada contra o sarampo, a papeira, a rubéola e a varicela, e não à recomendação de vacinação contra estas doenças.
A notícia foi reproduzida por vários órgãos de comunicação social portugueses, alguns dos quais mantêm a informação incorreta nas respetivas páginas.
Entretanto, a Lusa alterou o título e o primeiro parágrafo da notícia, corrigindo a informação essencial. Contudo, na versão atualmente disponível no seu portal, não existe qualquer indicação pública visível de que o texto tenha sido alterado, nem uma nota a explicar a incorreção original.
Lusa substituiu o título e corrigiu a informação inicial
A versão originalmente distribuída pela agência apresentava o seguinte título:
«Governo dos Estados Unidos deixa de recomendar vacina contra sarampo»
O primeiro parágrafo acrescentava:
«Especialistas nomeados pelo secretário para a Saúde dos Estados Unidos, Robert Kennedy Jr., decidiram deixar de recomendar a vacina contra o sarampo a crianças com menos de quatro anos de idade.»
A informação foi posteriormente modificada.
Na página atualmente disponível no portal da Lusa, o título passou a ser:
«Comité consultivo altera recomendações da vacinação contra o sarampo e outras doenças infantis nos EUA»
Também o primeiro parágrafo foi alterado, passando a especificar que os especialistas deixaram de recomendar «a vacina combinada contra sarampo, papeira, rubéola e varicela para crianças com menos de quatro anos, optando por duas vacinas».
A diferença é substancial: a primeira versão afirmava que tinha deixado de ser recomendada a vacinação contra o sarampo; a segunda esclarece que a alteração respeitava a uma formulação combinada, mantendo-se a vacinação através de duas vacinas distintas.
Não se trata, portanto, de uma simples alteração de estilo, mas da correção de uma informação factual central.
Apesar disso, a página da Lusa continua a apresentar a data original, 19 de setembro de 2025, sem uma nota pública visível a identificar as alterações.
Até o endereço eletrónico da notícia conserva a formulação incorreta do título inicial: governo-dos-estados-unidos-deixa-de-recomendar-vacina-contra-sarampo.
Não foi possível determinar a data em que as modificações foram introduzidas nem confirmar se a agência distribuiu posteriormente uma retificação formal aos seus clientes.
A informação falsa foi reproduzida pelos principais órgãos de comunicação social
A notícia original da Lusa teve ampla circulação na imprensa portuguesa.
O Público publicou-a sob o título «Governo dos Estados Unidos deixa de recomendar vacina contra sarampo», identificando a autoria como «PÚBLICO e Lusa».
O subtítulo reforçava a mesma interpretação, afirmando que a recomendação abrangia crianças até aos quatro anos.
A RTP também divulgou a notícia com o mesmo título e a afirmação de que os especialistas tinham decidido deixar de recomendar a vacina contra o sarampo a crianças com menos de quatro anos.
A informação continua disponível na página da RTP.
Também a Renascença publicou, a 19 de setembro, uma notícia sobre as recomendações relativas à vacina contra a Covid-19, na qual afirmava que o comité norte-americano tinha deixado de recomendar a vacina contra o sarampo a crianças com menos de quatro anos.
Não se pode concluir que todas estas publicações tenham tido exclusivamente origem na notícia da Lusa. Contudo, a reprodução literal do título e da abertura demonstra a circulação da informação falsa através de conteúdos da agência.
Alguns órgãos, como o Observador, publicaram a informação com um título mais preciso, esclarecendo desde logo que a decisão se referia à vacina combinada.
O The Blind Spot denunciou a informação falsa em 24 de setembro de 2025, identificando os órgãos que a tinham reproduzido e confrontando as alegações com as orientações oficiais norte-americanas.
Nessa ocasião, o The Blind Spot informou que tinha solicitado esclarecimentos à Lusa e a várias redações, sem ter recebido resposta até à publicação do artigo.
Mais de um ano depois, o Correio da Manhã voltou a publicar a informação falsa
A persistência do erro ficou particularmente evidente a 3 de novembro de 2026.
Nesse dia, o Correio da Manhã publicou uma notícia sobre a morte de uma criança associada a um surto de sarampo no Estado de Nova Iorque.
Depois de apresentar informações sobre o caso e a situação epidemiológica norte-americana, o jornal acrescentou:
«O Governo norte-americano deixou de recomendar a vacina contra o sarampo a crianças até aos quatro anos, em setembro de 2025.»
A afirmação é falsa.
O Correio da Manhã inclui ainda uma hiperligação para a sua notícia de setembro de 2025, intitulada «Governo dos Estados Unidos deixa de recomendar vacina contra sarampo».
Ou seja, mais de 13 meses depois da divulgação original, a informação incorreta voltou a ser apresentada como verdadeira numa nova notícia sobre saúde pública.
A situação demonstra que o erro não ficou limitado à publicação inicial. Continua acessível nos arquivos de vários órgãos de comunicação social e pode ser recuperado para contextualizar acontecimentos posteriores.
A ausência de uma nota de correção visível na Lusa dificulta ainda a identificação da incorreção por leitores que procurem confirmar o conteúdo original.
A decisão norte-americana nunca suspendeu a recomendação de vacinação contra o sarampo
A documentação oficial não deixa dúvidas quanto ao erro da informação inicialmente divulgada.
Num comunicado de 18 de setembro de 2025, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos explicou que o ACIP tinha votado favoravelmente uma recomendação para administrar separadamente a vacina contra a varicela a crianças com menos de quatro anos, em vez de utilizar a formulação combinada MMRV.
A decisão foi justificada com o risco acrescido de convulsões febris após a administração da primeira dose da vacina combinada, relativamente à administração das vacinas separadas.
Segundo a informação oficial apresentada ao comité, esse risco adicional correspondia a aproximadamente cinco convulsões febris por cada 10 mil doses.
A alteração não eliminou a vacinação contra nenhuma das quatro doenças.
Pelo contrário, o comunicado oficial esclarecia expressamente que as crianças continuariam a receber imunização contra o sarampo, a papeira, a rubéola e a varicela a partir dos 12 meses.
As recomendações dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) continuam a prever duas doses da vacina contra o sarampo: a primeira entre os 12 e os 15 meses e a segunda entre os quatro e os seis anos.
A preferência pela administração separada das vacinas não corresponde, portanto, à suspensão da recomendação de vacinação contra o sarampo.
Esta distinção estava expressamente documentada nas fontes oficiais quando a Lusa publicou a notícia original.
Ver também:
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