Vários órgãos de comunicação social portugueses, entre os quais RTP, DN, JN, Observador, TSF, Expresso, CNN Portugal e Sol, bem como a Agência Lusa, publicaram títulos ou entradas noticiosas que associavam a morte de um passageiro de 92 anos à suspeita de um surto de gastroenterite. Isto, apesar das autoridades afirmarem que tudo apontava para acontecimentos independentes, dado que não existiam casos graves reportados, a causa da morte foi uma paragem cardíaca e a vítima não tinha reportado sintomas compatíveis com a doença. A Euronews foi mais longe e alegou explicitamente que a morte decorreu do surto.
A informação disponível apontava para uma morte por paragem cardíaca, sem ligação estabelecida ao surto gastrointestinal. A Reuters noticiou que o passageiro, um cidadão britânico de 92 anos, morreu a bordo durante uma escala em Brest, a 11 de maio de 2026, devido a paragem cardíaca. A mesma notícia acrescenta que, segundo a autoridade local francesa responsável pela região de Bordéus, essa morte não parecia estar associada ao surto gastrointestinal.
A Associated Press confirmou posteriormente que o surto no Ambition foi causado por norovírus, mas acrescentou que, até esse momento, não havia casos graves reportados entre os doentes. A notícia fala de passageiros doentes tratados a bordo, mas não apresenta a morte como consequência do vírus. A AP acrescentou ainda que, segundo a companhia, o falecido não tinha reportado sintomas compatíveis com doença gastrointestinal.
Cobertura noticiosa
Em Portugal, vários títulos juntaram três elementos numa mesma formulação: morte, confinamento e suspeita de norovírus ou de gastroenterite. Essa construção nem sempre afirmava uma relação causal, mas criava uma associação imediata entre os factos.
Muitos órgãos de comunicação social citaram a Lusa como fonte. A formulação difundida pela agência colocava a morte do passageiro e a suspeita de epidemia de gastroenterite na entrada da notícia, sem acrescentar informação relevante então disponível, nomeadamente que a morte tinha sido descrita como paragem cardíaca, que o passageiro não tinha reportado sintomas gastrointestinais e que as autoridades não estabeleciam ligação entre a morte e o surto.
Sem esse enquadramento, o leitor é induzido a associar o confinamento, o falecimento e o surto logo na entrada da notícia.

Fonte: Mais de 1.700 pessoas confinadas num cruzeiro por suspeita de epidemia de gastroenterite
Difusão da formulação enganosa pelos media
Vários órgãos de comunicação social colocaram essa associação infundada no título sem referirem os dados disponíveis que afastavam uma relação causal.

Fonte: Vários títulos nacionais
Na introdução e no corpo das notícias as formulações foram igualmente enganadoras, já que levam a uma associação direta entre a suspeita de “epidemia de gastroenterite” (também essa formulação pouco rigorosa, já que se tratou de um surto) e a ocorrência de um falecimento.

Fonte: Um morto e mais de 1.700 pessoas confinadas num cruzeiro – Observador
Noutros casos a associação infundada é feita de forma ainda mais explícita, como no caso da RTP.

Fonte: Suspeita de norovírus. Um morto e 1.700 pessoas confinadas em navio em Bordéus- RTP
O caso da Euronews
A edição portuguesa da Euronews foi além da mera associação entre factos. Num texto publicado a 13 de maio, escreveu que a suspeita de surto de gastroenterite, já confirmada, tinha “infetado cerca de 50 passageiros e provocado a morte de uma pessoa”. A mesma formulação foi reproduzida na versão em vídeo.
Esta formulação atribui à gastroenterite a morte de uma pessoa, apesar de as fontes disponíveis indicarem que o passageiro morreu de paragem cardíaca e que não havia ligação estabelecida entre a morte e o surto.

Fonte: Vídeo. Confirmado surto de gastroenterite em cruzeiro com 1 700 passageiros | Euronews
A exceção da Rádio Renascença e do Público
Ao contrário da generalidade dos grandes media nacionais, a Rádio Renascença foi uma das poucas a informar do facto de que a morte do passageiro de 92 anos “não parece estar relacionada com o surto gastrointestinal”.
Segundo jornal digital ContraProva também o jornal Público atualizou a sua notícia com a informação de que a causa da morte foi, afinal, uma paragem cardíaca.
Contactos com a Lusa e vários media
Contactámos a Agência Noticiosa Lusa, a RTP, o Expresso, a CNN, o DN, o JN, o Observador, a TSF, a Euronews e o jornal Sol.
Até ao momento, apenas a Lusa respondeu, através da diretora-adjunta de Informação, Maria de Deus Rodrigues, que escreveu:
“A notícia que refere baseia-se na Agence France-Presse (AFP) e não faz uma correlação entre a morte e o presumível surto de norovírus, como se infere da sua leitura. Apenas enumera dois factos relevantes a bordo de um cruzeiro.
Nunca foi escrito que a morte tinha sido causada por infeção por norovírus.
Neste sentido, não vamos corrigir a notícia, que não está factualmente errada.”
Perante esta resposta, voltámos a questionar a Agência Lusa no dia 15 de maio:
“De facto são dois factos e o artigo não infere diretamente essa correlação. No entanto, a formulação “Mais de 1.700 pessoas estão confinadas num navio de cruzeiro (…) após a morte de um passageiro e uma suspeita de epidemia de gastroenterite, anunciaram hoje as autoridades” coloca os dois factos, a morte e o surto gastrointestinal, numa relação temporal e narrativa que pode levar (naturamente levará muitos) leitores a inferir essa correlação ou até causalidade.
Caso fosse considerado pertinente referir o falecimento a bordo, não deveria a notícia esclarecer também que, segundo a informação então disponível, não havia aparentemente qualquer relação entre a morte e o surto de gastroenterite? As informações divulgadas por outros meios internacionais apontavam para uma paragem cardíaca e indicavam que o passageiro, de 92 anos, e não de 90 anos como consta da peça, não tinha reportado sintomas de gastroenterite.
Gostaríamos, por isso, de compreender a razão para incluir o falecimento na entrada de uma notícia centrada no confinamento dos passageiros e numa alegada epidemia (que na realidade foi um surto), quando a informação disponível apontava para que os dois acontecimentos não estivessem relacionados.
Consideram que essa formulação, ainda que involuntariamente, pode ter induzido os leitores em erro, não apenas os leitores da Lusa, mas também os dos órgãos de comunicação social que republicaram ou seguiram a vossa informação?
Face a estes elementos, mantêm que não há lugar a qualquer correção, atualização ou clarificação da notícia?”
Até ao momento não recebemos qualquer resposta.
Fontes:
Caribbean Princess May 2026 | Vessel Sanitation Program | CDC
British cruise ship with 1,700 on board hit by illness, no hantavirus link | AP News
Cruise ship, carrying many Brits, stranded in France after stomach flu outbreak | Reuters
Ver também:
Euronews: Manual de alarmismo e desinformação sobre o clima – The Blind Spot
Arquivo de Fake News – The Blind Spot
