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Os recentes resultados eleitorais no Reino Unido constituíram uma derrota histórica para o primeiro-ministro, para o Partido Trabalhista e, numa dimensão menor, para o partido Conservador. O grande vencedor, o Reform UK, parece ter capitalizado em temas como políticas energéticas, degradação de serviços públicos e imigração.

Os resultados das eleições locais inglesas e das eleições parlamentares no País de Gales e na Escócia expuseram a fragilidade política de Keir Starmer. Em várias zonas tradicionalmente trabalhistas, o partido Reform UK transformou voto de protesto em poder local. Também os Verdes, o Plaid Cymru e candidatos independentes captaram eleitorados urbanos, jovens e críticos da direção do Governo.

Resultados Eleitorais

Em Inglaterra, a Reform UK conquistou mais de 1 300 lugares em conselhos municipais e o controlo de 13 conselhos, sobretudo à custa do Partido Trabalhista, que perdeu mais de 1 200 lugares e mais de 30 conselhos. O Partido Conservador também sofreu perdas pesadas, com quase 500 lugares e oito conselhos perdidos. Em sentido contrário, os Liberais Democratas ganharam quase 800 lugares e 13 conselhos, enquanto os Verdes somaram mais de 300 lugares e quatro conselhos.

Resultados no País de Gales

No País de Gales, o resultado representou uma ruptura histórica. O Plaid Cymru tornou-se o maior partido no Parlamento do País de Gales, com 43 lugares, seguido pela Reform UK, com 34. O Partido Trabalhista caiu para nove lugares, um colapso particularmente simbólico num território onde dominava a política desde a criação da autonomia moderna.

O enquadramento histórico torna a mudança mais forte: em 2021, o Labour tinha vencido 30 dos 60 lugares, com 38,0% dos votos, os Conservadores tinham ficado em segundo com 16 lugares e o Plaid Cymru em terceiro com 13. Em 2026, além da inversão partidária, houve também uma alteração institucional, com o Senado alargado para 96 membros e um novo sistema em que 16 círculos elegem seis membros cada.

Resultados na Escócia

Na Escócia, o Partido Nacional Escocês (SNP) voltou a vencer e manteve-se como maior força no Parlamento escocês, mas sem maioria absoluta. O partido obteve 58 lugares, abaixo dos 64 que tinha na legislatura anterior. A Reform UK entrou no Parlamento escocês com 17 lugares e empatou com o Partido Trabalhista, também com 17. Seguiram-se os Verdes, com 15, o Partido Conservador, com 12, e os Liberais Democratas, com 10.

O resultado confirma a continuidade do domínio nacionalista escocês, mas mostra uma oposição mais fragmentada. Na legislatura anterior, os Conservadores tinham 31 lugares e o Partido Trabalhista 22; agora, ambos recuaram, enquanto a Reform UK e os Verdes ganharam peso.

As agendas do Governo Starmer

Starmer chegou ao poder com uma agenda económica centrada na transição energética, no investimento público selectivo e em parcerias com empresas. Essa orientação teve uma montra em Davos, em 2023, quando apresentou o seu plano de crescimento verde no Fórum Económico Mundial e defendeu um Estado activo disposto a trabalhar com o sector privado. O programa trabalhista também prometeu usar energia limpa para reforçar a segurança energética, investir no isolamento das casas e reduzir as facturas no longo prazo.

Na imigração, a evolução foi marcada por uma viragem clara. Em 2020, Starmer defendia direitos de voto para cidadãos da União Europeia, a livre circulação, o fim da detenção indefinida. A partir de 2022, passou a defender menor dependência de mão-de-obra estrangeira e maior investimento na formação de trabalhadores residentes. Já no Governo o seu governo impôs forte restrições. No Livro Branco sobre imigração passou a apresentar o objetivo de um sistema controlado e gerido, com ligação entre vistos, crescimento económico e qualificação interna.

Razões dos resultados eleitorais

As razões para estes resultados são múltiplas. A Reform UK cresceu como veículo de protesto contra o custo de vida, a imigração, a degradação dos serviços públicos e as metas de neutralidade carbónica. O seu programa atribui a subida das faturas à política climática, propõe abandonar a neutralidade carbónica, cortar subsídios às renováveis, acelerar licenças para gás e petróleo no Mar do Norte e autorizar projectos-piloto de gás de xisto.

As políticas energéticas do Reino Unido, tal como de outros países europeus, contribuíram para o disparar das faturas energéticas. A título de exemplo, para consumidores domésticos o preço da eletricidade é 248% acima da média mundial e para empresas é 168% acima dessa média. Desse modo, o país tem a sexta energia doméstica empresarial mais cara do mundo (a par da Bélgica) e a mais cara para empresas.

Imigração

A imigração também pesou na penalização dos partidos tradicionais. O ponto central não é apenas estatístico, mas político: tanto Conservadores como Trabalhistas prometeram maior controlo migratório, mas não conseguiram neutralizar a percepção pública de perda de controlo. Os dados oficiais mostram que a migração líquida caiu para 204 mil no ano terminado em Junho de 2025, cerca de dois terços abaixo do ano anterior, mas a pressão acumulada desde o pico de 944 mil no ano terminado em Março de 2023 continuou a alimentar o debate sobre habitação, serviços públicos, salários e coesão social.

Também a forte imigração, que tem descaracterizado especialmente as grandes cidades e criado tensões, é apontada como um dos principais motivos para a penalização dos partidos tradicionais. Nem os Conservadores, nem os Trabalhistas conseguiram neutralizar a percepção pública de perda de controlo. Os dados oficiais mostram que a migração líquida caiu para 204 mil no ano terminado em Junho de 2025, cerca de dois terços abaixo do ano anterior, mas a pressão acumulada desde o pico de 944 mil no ano terminado em Março de 2023 continuou a alimentar o debate sobre habitação, serviços públicos, salários e coesão social.

Por outro lado, os Verdes, o Plaid Cymru e independentes cresceram noutros territórios, muitas vezes urbanos, jovens, estudantis ou com eleitorados críticos do Partido Trabalhista por razões sociais, ambientais e de política externa.

Um desses exemplos prende-se com a tensão no Médio Oriente e com o facto da perceção de insuficiente demarcação do Governo face à guerra em Gaza, tema que mobilizou sectores muçulmanos, estudantis e de esquerda em algumas cidades.

Escândalos e crises de integridade

A crise de Starmer foi agravada por vários casos que atingiram a sua narrativa de competência e integridade. Entre eles estão a controvérsia em torno da nomeação de Peter Mandelson para embaixador nos Estados Unidos, apesar das suas ligações conhecidas a Jeffrey Epstein, e o caso das ofertas de Lord Waheed Alli, incluindo roupas e outros benefícios inicialmente declarados como apoio ao gabinete privado do então líder da oposição.

As pressões para Starmer se demitir

A pressão interna sobre Keir Starmer, que já era elevada, agravou-se depois desta estrondosa derrota em Inglaterra e a perda do controlo do parlamento galês. Dezenas de deputados trabalhistas exigirem a sua saída ou um calendário de transição na liderança para travar o avanço do Reform UK.

Starmer, por enquanto, recusa demitir-se e enquadra a contestação como instabilidade prejudicial ao país. No entanto, os resultados sugerem que o Partido Trabalhista deixou de ser visto como resposta credível por sectores muito diferentes do eleitorado, desde antigos bastiões operários atraídos pela Reform UK até zonas urbanas onde crescem Verdes, nacionalistas e independentes.

Fontes:

Elections: Analysis in maps and charts, and find out the result from your seat | Politics News | Sky News

Senedd Cymru/ Welsh Parliament elections 2021 – House of Commons Library

SPICe general election Scotland 2026 results and analysis

Davos 2023-‘Open for business’ Labour slams PM Sunak no-show | Reuters

United Kingdom electricity prices, September 2025 | GlobalPetrolPrices.com

Electricity prices around the world | GlobalPetrolPrices.com

How many Labour MPs are calling on PM to go – and who are they? | Politics News | Sky News

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