Duarte Costa, político e comentador da SIC sobre alterações climáticas, afirmou que “o calor é o fenómeno climático que mais mata”. No entanto, essa alegação é falsa, já que a melhor evidência aponta para que o frio esteja associado a cerca de 10 vezes mais mortes do que o calor. O estudo recente mais representativo estima mesmo que o ligeiro aquecimento global terá reduzido em 650 mil o número de mortes associadas à temperatura entre 2016 e 2019.
Duarte Costa,co-presidente do Volt Portugal, comentador da SIC Notícias em temas climáticos e especialista em alterações climáticas, lançou um conjunto de previsões e cenários baseados em modelos replicadas em várias peças da SIC-N.
Alegação de Duarte Costa sobre mortes pelo calor
Mas, além das previsões falhadas, Duarte Costa foi mais longe ao alegar que “o calor é o fenómeno climático que mais mata”. Algo que não é verdade de acordo com a melhor evidência disponível.
O que dizem os estudos globais
O maior estudo global, publicado no The Lancet Planetary Health em 2021, estimou cerca de 5,08 milhões de mortes anuais associadas a temperaturas não ótimas entre 2000 e 2019. Dessas mortes, cerca de 4,59 milhões foram atribuídas ao frio e 489 mil ao calor. Em percentagem da mortalidade global, o estudo atribuiu 8,52% das mortes ao frio e 0,91% ao calor, o que corresponde a uma diferença próxima de 9,4 vezes.
Outro estudo global, publicado em The Lancet em 2015, analisou mais de 74 milhões de mortes em 384 localidades de 13 países. Os autores estimaram que 7,29% das mortes eram atribuíveis ao frio e 0,42% ao calor. Ou seja, cerca de 17 vezes mais mortes associadas ao frio.
O que dizem os estudos europeus
Também os estudos que analisam os dados da Europa são consistentes com a predominância das mortes associadas com o frio.
O estudo europeu de 2021, publicado em The Lancet Planetary Health, analisou 147 regiões em 16 países europeus. Estimou que 7,17% das mortes eram atribuíveis a temperaturas não ótimas: 6,51% ao frio e 0,65% ao calor, novamente uma diferença próxima de dez vezes.
Outro estudo, igualmente publicado em The Lancet Planetary Health em 2023, que analisou mais de 850 cidades europeias em 30 países, estimou cerca de 204 mil mortes anuais atribuídas ao frio e 20 mil atribuídas ao calor. A diferença é, novamente, de cerca de dez vezes.
Redução da mortalidade associada à temperatura
Outra das conclusões importantes é a de que o aumento de temperaturas global reduz significativamente a mortalidade associada a temperaturas não ótimas.
De acordo com o último grande estudo global, anteriormente citado, o excesso de mortes relacionadas com o frio diminuiu 0,51%, enquanto que as relacionadas com o calor aumentaram 0,21%, o que originou uma grande redução do número de mortes.
Considerando apenas os anos de 2016 a 2019 e comparando-os com o período de 2000 a 2003, o aquecimento da temperatura média está associado a cerca de 650 mil mortes a menos no total do quadriénio, ou cerca de 160 mil mortes a menos por ano.
Perguntas à SIC-N e tentativa de contacto com Duarte Costa
Entre outros temas, questionámos a SIC-N sobre se pretendiam continuar a convidar especialistas com conflitos de interesse e que, neste caso, passou informações falsas sobre a mortalidade devido ao calor.
Até ao momento, não obtivemos qualquer resposta.
Tentámos igualmente contactar Duarte Costa para lhe colocar questões e obter esclarecimentos. O contacto direto não nos foi facultado. O Volt Portugal informou-nos logo após o nosso email, que iria pedir autorização a Duarte Costa para nos facultar esse contacto. No entanto, não recebemos resposta.
Fontes:
Ver também:
Alarmismo climático na SIC-N: previsões falham rotundamente – The Blind Spot
Arquivo de Fake News – The Blind Spot
