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Censura em tempos de pandemia

A limitação da liberdade de expressão em termos de pandemia merece uma reflexão particular pois extravasa, em muito, as motivações ideológicas.

As principais redes sociais e grande parte dos média assumiram uma narrativa sobre a pandemia. A supressão de pontos de vista que os contrariasse foi evidente desde a primeira hora. Cientistas de reputação mundial como John Iaonnidis foram ignorados, insultados e até censurados.

O caso de Ioannidis

O prestigiado investigador de Stanford, com importantes contribuições em áreas como a epidemiologia e a investigação clínica, abordou ao longo dos anos e com grande impacto o tema da falta de qualidade da investigação atual e de como a sua maioria se revela falsa.

No início da pandemia nos EUA e na Europa, alertou para a ausência de dados fiáveis para se apresentar uma letalidade de 3,4% (OMS) e para as consequências negativas de intervenções baseadas nesse grau de alarme.

Hoje ele tem publicado na própria OMS uma estimativa que ronda os 0,23% (0,05% abaixo de 70 anos), mesmo tendo por base países com taxas de mortalidade mais elevadas. Se considerarmos as estimativas da OMS sobre a população infetada esse valor desce ainda mais para os 0,15% a 0,20%.

Trata-se de um valor cerca de 17 vezes inferior ao inicialmente anunciado. Independentemente do valor final, que ainda é discutido e que pode demorar anos a apurar, é já evidente que as suas suspeitas sobre a letalidade tinham fundamento.

Quanto às consequências de algumas medidas aplicadas são hoje universalmente reconhecidas e são devastadoras.

Mas estas visões não chegaram à maioria das pessoas, simplesmente foram ignoradas. Privilegiaram-se outras vozes com currículos inferiores e, não raras vezes, apresentadas investigações com um nível de evidência fraca ou sofrível.

Os fact-checkers e as rede sociais

Criou-se um falso consenso alicerçado em assunções dogmáticas, muitas delas já desmentidas pela evidência. Impuseram-se verdades absolutas como: “a letalidade é enorme”, “ninguém é imune”, “o vírus não é sazonal”, “as escolas aumentam muito as transmissões”, só para dar alguns exemplos.

Mas como não há (quase) contraditório, tenta-se manter os postulados iniciais como se a grande maioria não tivesse sido já rejeitada ou, pelo menos, não estivesse a ser contestada por parte significativa da comunidade científica.

Os fact-checkers, por exemplo, são hoje uma arma essencial para se silenciar vozes incómodas, que põem em causa o status quo pandémico. Em geral, podem fazer muito sentido. Como o nome indica, podem ajudar a confirmar factos objetivos ou com um grau de evidência científica sólida. As vacinas causam autismo? O político mentiu ao dizer que nunca disse algo?

Mas não é só para isso que estão a servir atualmente. Servem também para suprimir e denegrir vozes que vão contra a sua narrativa. De todas as vozes que existem na comunidade científica escolhem-se as que confirmam as suas teses, ignorando outras, com igual ou maior credibilidade, que defendem o contrário.

Estar a desmentir alguém quando há evidências e opiniões contraditórias é claramente uma forma de censura e intimidação.

Mensagens, mesmo que bem fundamentadas, mas que subjetivamente sejam avaliadas como minimizadoras dos riscos da pandemia são suprimidas para o bem da saúde pública.

Mensagens, mesmo que mal fundamentadas, que objetivamente dramatizam os riscos da doença e criam uma perceção de risco desproporcionado estão imunes a esse controlo.

Cada um terá a sua opinião sobre qual o tipo de mensagens que terá mais riscos, nomeadamente em termos de saúde pública. Mas não serão os jornalistas, os fact-checkers ou qualquer rede social, os melhores para avaliar isso. Até porque, muitas vezes, essa avaliação é complexa e multifatorial.

Os dissidentes

Com estas práticas totalitárias e com o etiquetar das vozes divergentes como “negacionistas” conseguem silenciar muitos que não concordam com a visão apresentada e com algumas das medidas. Sucumbem ao conformismo social e à autocensura. Muitas vezes, por medo, possivelmente justificado, de represálias ou de perdas reputacionais.

Felizmente há sempre quem não se deixe intimidar. Por caráter e também certamente por terem (ainda) alguma independência para o poder fazer.

Estarão essas vozes certas em tudo? Certamente que não. Até porque muitos caem no mesmo radicalismo, deixam de olhar para a evidência e rotulam igualmente, de termos menos simpáticos, quem deles legitimamente discorda.

Mas a questão não é se estão mais certos ou mais errados.

O ponto é que é na apresentação de argumentos, evidências e factos que uma sociedade democrática deve assentar. Não é no obscurantismo, na censura e na perseguição de quem não segue a corrente dominante. Não é no autoritarismo, venha ele de onde vier.
Existem muitas evidências contraditórias. Por isso, em muitos temas devem ser colocadas várias hipóteses alternativas e não seguidas narrativas, por mais intuitivas e convenientes que sejam.
Só com liberdade de expressão podemos expurgar as “más ideias” e as informações enganosas. Só com liberdade de expressão podemos confrontar evidências e pontos de vista diferentes e chegar às melhores soluções.

Se não existir esse contraditório estamos vulneráveis a todo o tipo de manipulações, abusos de poder e medidas descabidas à luz da ciência.

Temos de lutar contra a censura, independentemente de onde venha e de que forma assuma. Concordemos, ou não, com o que é censurado.

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