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VÍRUS, IMUNIDADE E EXPOSIÇÃO – UMA RELAÇÃO COMPLEXA

As infeções respiratórias são seguramente um dos grandes motivos de consulta médica ou recurso a serviços de urgência. Muitas delas são de origem viral, causadas por numerosos tipos de vírus dos quais se destacam as diversas estirpes de influenza (gripe) e os coronavírus endémicos (e nas crianças e idosos o vírus sincicial respiratório).

Estas infeções, ao contrário de outras infeções virais agudas (sarampo, varíola) ou latentes (varicela, mononucleose) caracterizam-se pela imunidade parcial fruto das frequentes mutações do vírus (deriva genética) que lhe permite reinfectar o hospedeiro várias vezes embora com a gravidade bastante limitada por processos imunológicos independentes de anticorpos. Em alguns destes vírus, inclusive poderá não existir em todos os indivíduos uma memória imunológica fiável pelo que a manutenção da imunidade depende de reinfeções periódicas (enterovirus e coronavírus endémicos por exemplo). Todas elas partilham com a covid-19 o serem doenças contagiosas – é da experiência de todos nós que muitas vezes a gripe/ bronquite/ constipação se espalham rapidamente numa família ou num ambiente de trabalho.

Recentemente tem-se assistido, provavelmente em contexto das medidas não farmacológicas implementadas para controlo pandémico, a alterações importantes na sazonalidade e nas características de algumas viroses até agora banais e previsíveis.

O primeiro exemplo é o vírus sincicial respiratório (VSR), vírus para o qual a imensa maioria dos adultos tem imunidade sólida, mas que é causador de patologia grave em lactentes (pneumonia e/ou bronquiolite, inclusive com insuficiência respiratória grave – é aliás uma das grandes causas de admissão em Cuidados Intensivos pediátricos). Ora a imunidade para o VSR, duradoura nos adultos, é no lactente dependente de anticorpos transferidos in útero e/ou no leite materno, sendo a concentração destes (e portanto a sua eficácia no lactente) dependente da exposição reiterada ao agente da mãe. A ausência de exposição durante os confinamentos traduziu-se num aumento inaudito de infeções por VSR em lactentes, algumas de extrema gravidade e inclusive no Verão, estando neste momento já demonstrado a menor concentração de anticorpos anti-VSR no leite materno.

Após o levantamento das medidas assistimos também a uma mudança do comportamento clinico ou epidemiológico de alguns vírus que poderá ser atribuído a um acumular de população suscetível (inclusive em idades em que não era habitual haver o primeiro contacto com os agentes). Por exemplo em Abril do corrente ano, foi chamada a atenção para quadros de hepatites agudas em idade pediátrica com pesquisa negativa para os agentes habituais e algumas com evolução para insuficiência hepática fulminante com necessidade de transplantação hepática (ao contrário do rim que pode ser substituído por diálise , a perda total de função hepática costuma ser fatal em poucos dias na ausência de uma transplantação hepática bem sucedida). Veio-se a demonstrar que na maioria destas crianças estava em causa um adenovírus (em outras foi identificado herpes vírus humano tipo 6 (HHV-6) sendo o denominador comum aparentemente a infeção concomitante por um vírus adeno-associado (AAV-2) – um “parasita“ do adenovírus” . Todos estes agentes (adenovírus, AAV-2 e HHV-6) já em dado momento infectaram quase todos os adultos não sendo nada habitual este quadro clinico pelo que se especula com alguma lógica , que a alteração do comportamentos destes agentes tenha a ver com uma primeira exposição muito tarde na vida fruto das medidas de contenção.

A gripe ou influenza é uma patologia viral epidémica, sazonal e para a qual existe uma vacina, embora uma vez que o agente é de fácil mutação, obrigue a reforços periódicos a fim de ir acompanhando a deriva genética do influenza (todos os anos, a composição da vacina da gripe é actualizada e modificada segundo normativos da OMS, a fim de acompanhar a evolução do vírus). Temos também assistido a uma alteração importante do comportamento epidemiológico deste agente com casos estivais (que eram muito raros até agora) e inicio mais precoce com fim mais tardio das épocas gripais, arriscando sobrelotação de serviços no inverno.

Por fim poderemos ainda entrar em especulação com a possibilidade de complicações de outras “viroses” nomeadamente enterovirus – síndroma pé-mão-boca mas que em alguns casos poderiam originar paralisias (análogas à poliomielite), meningites ou encefalites e pericardites. Mais uma vez, a maioria da população já teve contacto com vários tipos de enterovirus desde a idade escolar. Não sabemos neste momento se este receio se irá materializar mas dada a analogia com os adenovírus, aguardemos a próxima epidemia (o CDC já emitiu um aviso para o enterovirus D68).

Portanto, as medidas não farmacológicas poderão ter tido a sua utilidade antes da vacinação covid mas neste momento a sua manutenção na população arrisca este tipo de danos colaterais que poderão ser imprevisíveis.

Tiago Marques (médico infeciologista)

Ver também:

SARS, Covid-19 e infeções respiratórias virais – uma comparação

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