A psicóloga Beatriz Pereira lançou a petição para proibir músicas com teor sexual em eventos destinados a crianças, depois de ter visto, no Dia da Criança, festas municipais e actuações escolares com letras e coreografias que considerou inapropriadas. Ao The Blind Spot, a autora da petição relata que alguns pais que se opõem a estas escolhas musicais têm sido hostilizados e apelidados de “antiquados”. Esta semana, a iniciativa ultrapassou as 14 mil assinaturas, depois de mais um vídeo com crianças a entoar letras obscenas ter ‘viralizado’ e suscitado a indignação de muitos utilizadores nas redes sociais.
“Eu estou querendo relembar a tua sentada no meu colo devagar”, “galopa, galopa”, “senta no pai”. Quando, em Junho, anunciava na sua página de Instagram uma petição para proibir músicas com conteúdo sexualizado em contextos e eventos dirigidos a crianças, a psicóloga Beatriz Pereira denunciava algumas situações ocorridas no Dia Mundial da Criança que considerou preocupantes. Designadamente, festas municipais que tiveram DJ’s a passar músicas com teor sexual ou escolas de dança que organizaram espéctaculos para crianças de cinco e seis anos, com “movimentos sensualizados” e ao som de letras sexualizadas.
Na altura, a psicóloga, especializada em crianças e adolescentes, admitiu que a ‘gota da água’ para que lançasse a petição foram as situações de que teve conhecimento no Dia da Criança, reconhecendo, porém, ter havido um “acumular de eventos” que foi observando ao longo do tempo.
No documento, explicita que o objectivo da petição “é proteger as crianças da exposição a conteúdos inapropriados para a faixa etária, de carácter sexualizado, durante eventos ou atividades direcionadas ao público infantil, como festas escolares, eventos municipais, ou arraiais específicos para crianças”.
Em cerca de dois meses, já tinha atingido as 7.500 assinaturas necessárias para que pudesse ser discutida na Assembleia da República, mas o número de peticionários não tem parado de crescer: à data de hoje, já foi subscrita por mais de 14 mil pessoas.
Vídeo nas redes sociais ‘insufla’ assinaturas em poucos dias
De facto, o documento continua a ser amplamente divulgado nas redes sociais e teve cerca de 2.000 novas assinaturas na última semana, após um vídeo se ter tornado ‘viral’, no qual se vêem dezenas de crianças numa escola a dançar e a cantar funk brasileiro com letras obscenas enquanto filmam com os telemóveis.
“Solta a carta c******”, “tigrinho filh* da p*ta”, “vou pegar o meu dinheiro e comer umas quatro p****”, “sequência de pau”, foram algumas das expressões repetidas pelos alunos em idade escolar.
O caso suscitou inúmeros comentários de utilizadores (e pais) indignados.

E são precisamente estas situações que Beatriz Pereira pretende evitar com a esta iniciativa, por acreditar que podem ter efeitos prejudiciais no desenvolvimento das crianças – algo que a psicóloga explica na petição:
“Esta exposição precoce e repetida a letras e coreografias sexualizadas tem consequências negativas no desenvolvimento infantil, afetando a imagem corporal, a exploração sexual precoce, e as relações interpessoais. Acreditamos ser essencial criar mecanismos legais e orientações claras que norteiem organizadores, autarquias e entidades promotoras a garantir contextos culturalmente seguros e adequados à idade das crianças”.
Pais que se opõem são hostilizados e chamados “antiquados”
Questionada pelo The Blind Spot, a psicóloga detalhou ainda algumas das situações a que assistiu e que a motivaram a avançar com a petição.
“Associações de pais a escolherem músicas com conteúdo sexualizado para festas de finalistas e a hostilizarem os pais que se opõem a esta escolha, chamando de antiquados por exemplo; escolas de dança a utilizarem estas músicas em atuações com menores, com roupas e movimentos completamente inadequados à idade, e a apagarem os comentários de pessoas que diziam achar esta prática errada”, são alguns dos casos que relata.
Agora, ultrapassadas as 7.500 assinaturas e já com a certeza de que a petição vai chegar aos deputados, a peticionária gostava que o Parlamento chegasse a um acordo “para a definição de critérios claros sobre o que constitui conteúdo inadequado para crianças, a fiscalização e sensibilização junto de instituições, organizadores de eventos e educadores, e a promoção de alternativas culturais e artísticas que respeitem os direitos das crianças e configurem conteúdo educativo”.
No entanto, acima de tudo, diz-nos, os seus objectivos com esta iniciativa passam por alertar e contribuir para uma maior consciência “acerca do impacto destas músicas no desenvolvimento infantil, quer junto de pais, quer junto de instituições que trabalhem com crianças”.
Testemunhos a favor da petição multiplicam-se
E, neste aspecto, a psicóloga parece estar a ser bem-sucedida, uma vez que a petição já foi partilhada por várias personalidades conhecidas, nomeadamente artistas e influencers como Melânia Gomes e Sofia Arruda, e as demonstrações de apoio têm sido diárias.
“Na grande maioria, as reações têm sido de apoio e tenho recebido diariamente testemunhos de indignação face a várias situações que têm acontecido em contextos e eventos que deviam ser direcionados a crianças e, por isso, com conteúdo adequado às mesmas (falo de festivais panda e de escolas, por exemplo)”, revela ao The Blind Spot.
Contudo, assume que também já recebeu ‘feedback’ em sentido contrário, com pessoas a considerar que é inútil tentar proibir, ou que não vêem nada de errado com este tipo de músicas em eventos infanto-juvenis.
Há “pessoas que dizem que não adianta regulamentar porque as crianças trazem as músicas de casa, pessoas que mencionam que é censura, e pessoas que ficam na defensiva e acham que não tem mal nenhum este tipo de práticas”, refere. Mas a psicóloga contesta esses argumentos.
“De facto, não podemos controlar o que acontece dentro da casa de cada família, mas se pudermos regulamentar os espaços públicos, já temos um grande avanço em mãos. Não é por uma criança poder ter acesso a, por exemplo, tabaco por outras vias, que vamos vender tabaco na escola, não é? E pegando igualmente no exemplo do tabaco: então também é censura proibir que se fume em locais públicos fechados? Dá que refletir”, remata.
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