CDC reduz em cerca de 55 doses as vacinações pediátricas recomendadas universalmente nos EUA

O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) anunciou uma profunda revisão do calendário de vacinação pediátrica dos Estados Unidos, que deixa de recomendar para todos os jovens vacinas como as da gripe, da Hepatite (A e B) ou do RSV. A decisão, fundamentada numa análise comparativa internacional e numa reavaliação das evidências científicas disponíveis, reduz substancialmente o número de vacinas e de doses recomendadas universalmente, sem restringir o acesso da população às imunizações existentes.

Uma revisão inédita do calendário de vacinação pediátrica dos Estados Unidos foi anunciada esta semana pelo CDC e inverte décadas de aumento do número de vacinas recomendadas à população infantil.

Trump tinha orientado formalmente o secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) e o diretor interino dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) que examinassem a forma como outras nações desenvolvidas estruturam seus calendários de vacinação infantil e, sobretudo, avaliassem as evidências científicas que sustentam essas práticas.

“O presidente Trump orientou-nos a examinar como outras nações desenvolvidas protegem suas crianças e a tomar medidas caso elas estejam a obter melhores resultados”, afirmou o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr.

Uma revisão científica com foco comparativo

O HHS coordenou uma avaliação científica abrangente, que comparou o sistema de imunização infantil dos EUA com o de 20 países desenvolvidos comparáveis. O trabalho, além de verificar a listagem de vacinas: analisou a adesão à vacinação, a confiança pública nas instituições de saúde, as evidências clínicas e epidemiológicas, as lacunas de conhecimento científico, os modelos de obrigatoriedade e os próximos passos regulatórios possíveis.

Conclusão: Mais vacinas, mas menos confiança

O relatório concluiu que os Estados Unidos recomendam mais vacinas de rotina e muito mais doses do que qualquer outro país desenvolvido.

Em 2024, os EUA tinham vacinas contra 17 doenças no calendário pediátrico de rotina. Por outro lado, países como a Dinamarca, que vacinam crianças contra cerca de 10 doenças e têm menos mandatos, são citados por alcançarem excelentes resultados em saúde infantil e manterem altas taxas de vacinação.

Segundo a avaliação feita, o fator determinante não é a imposição, mas a confiança pública.

Alinhamento ao consenso internacional

Ao anunciar a decisão, Kennedy Jr. enquadrou a reforma como um reposicionamento estratégico dos EUA:

“Após uma análise exaustiva das evidências, estamos a alinhar o calendário de vacinação infantil dos EUA ao consenso internacional, ao mesmo tempo que fortalecemos a transparência e o consentimento informado. Essa decisão protege as crianças, respeita as famílias e reconstrói a confiança na saúde pública.”

Três categorias em vez de uma recomendação única

Como resultado direto da avaliação, o CDC passará a organizar o calendário pediátrico em três categorias distintas, todas obrigatoriamente cobertas pelos seguros de saúde:

  1. Vacinas recomendadas para todas as crianças;
  2. Vacinas recomendadas para grupos ou populações de alto risco;
  3. Imunizações baseadas em tomada de decisão clínica compartilhada.

Grande redução do número de vacinas recomendadas universalmente

A primeira categoria, que contempla as vacinas recomendadas para todas as crianças, incluirá 6 vacinas contra 11 doenças:

  1. Sarampo, papeira e rubéola (MMR);
  2. Difteria, tétano e tosse convulsa;
  3. Poliomielite;
  4. Varicela;
  5. Haemophilus influenzae tipo b (um tipo de meningite bacteriana);
  6. Pneumocócica conjugada; e
  7. HPV (agora apenas uma dose).

Saem deste grupo as vacinas contra 6 doenças:

  1. Hepatite A (2 doses);
  2. Hepatite B (2–3 doses);
  3. Gripe (anual);
  4. Rotavírus (duas doses);
  5. Meningocócica; e
  6. Vírus Sincicial Respiratório (RSV).

Esta alteração constitui uma redução de seis doenças alvo de vacinação universal e do número total de inoculações pediátricas em cerca de 55 doses.

Vacinas para grupos de risco e sujeitas a “tomada de decisão clínica partilhada”

A segunda categoria inclui vacinas recomendadas apenas para determinados grupos ou populações de alto risco e consiste em vacinas contra o vírus sincicial respiratório (RSV), hepatite A e B, dengue e doenças meningocócicas (ACWY e B).

A terceira categoria, de acordo com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, inclui imunizações baseadas em «tomada de decisão clínica partilhada» e consiste em vacinas contra a gripe, COVID-19, rotavírus e hepatite A e B.

Acesso a vacinas mantém-se

Outros dos pontos importantes é de que o acesso vacinal para as vacinas sem recomendação universal se mantém e estas continuarão a ser cobertas pelos programas federais de seguro saúde.

O administrador do CMS, Dr. Mehmet Oz, enfatizou isso mesmo:

“Todas as vacinas atualmente recomendadas pelo CDC continuarão sendo cobertas pelos planos de saúde sem custos adicionais para o paciente. Nenhuma família perderá o acesso.”

Confiança pública no centro da decisão

Um dos argumentos mais repetidos pelas autoridades é o declínio acentuado, de 72% para 40% segundo o próprio CDC, da confiança pública nas instituições de saúde entre 2020 e 2024- Período esse em que também se observaram quedas nas taxas de vacinação infantil.

Para o comissário da FDA, Dr. Marty Makary, esse contexto é decisivo:

“A saúde pública só funciona quando as pessoas confiam nela. Essa confiança depende de transparência, ciência rigorosa e respeito pelas famílias.”

A reforma é apresentada, assim, não apenas como uma decisão técnica, mas como uma tentativa explícita de reconstrução de legitimidade institucional.

Necessidade de decisões mais bem fundamentadas

As novas recomendações reconhecem ainda a necessidade de mais e melhores estudos científicos de referência, incluindo ensaios randomizados controlados por placebo e estudos observacionais de longo prazo, para caracterizar com maior precisão benefícios, riscos e resultados das vacinas.

As agências do HHS são instadas a financiar esses estudos para todas as vacinas do calendário, um ponto sublinhado pelo diretor do NIH, Dr. Jay Bhattacharya:

“A ciência exige avaliação contínua. Esta decisão compromete o NIH, o CDC e o FDA com a ciência de excelência, maior transparência e reavaliação constante à medida que novos dados surgem.”

Reações à decisão

A decisão tem gerado grande debate com alguns especialistas em saúde pública e associações médicas a alertarem para potenciais riscos, enquanto outros tem defendido a medida e advogando reavaliações futuras baseadas nas evidência emergentes.

Fontes:

Fact Sheet: CDC Childhood Immunization Recommendations | HHS.gov

decision-memo-adopting-revised-childhood-adolescent-immunization-schedule.pdf

CDC updates childhood vaccine schedule  | AHA News

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