A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a redução da energia nuclear na Europa foi um “erro estratégico”. No entanto, as suas declarações omitem o apoio que a própria deu à decisão quando pertencia ao governo alemão que decidiu abandonar totalmente o recurso a essa fonte de energia. De recordar que apesar da forte subsidiação das renováveis intermitentes (solar e eólica), a União Europeia tem a energia mais cara do mundo e depende de importações de hidrocarbonetos (petróleo, carvão e gás) para mais de 50% das suas necessidades energéticas.
Num discurso no Nuclear Energy Summit realizado em Paris em Março de 2026, von der Leyen afirmou:
“A redução da energia nuclear foi uma escolha. Acredito que foi um erro estratégico para a Europa virar as costas a uma fonte fiável e acessível de eletricidade com baixas emissões.”
A declaração surgiu no contexto de um debate europeu sobre a diversificação das fontes de energia e a redução da dependência dos hidrocarbonetos. Segundo dados apresentados nesse contexto, a energia nuclear representava cerca de um terço da produção elétrica europeia em 1990, enquanto atualmente corresponde a cerca de 15%.
O papel de von der Leyen no governo que abandonou o nuclear
Quando a Alemanha decidiu acelerar o abandono da energia nuclear em 2011, von der Leyen era ministra no governo federal liderado por Angela Merkel. Após o acidente na central japonesa de Fukushima, o governo alemão aprovou uma mudança profunda na política energética conhecida como Energiewende, que incluía o encerramento progressivo das centrais nucleares do país.
Von der Leyen fazia parte do executivo que tomou essa decisão política e, na altura, também fez declarações públicas que justificavam a mudança de política.
Numa entrevista, von der Leyen, então ministra do Trabalho e próxima de Merkel, saudou a eliminação gradual da energia nuclear, dizendo que “Fukushima foi um ponto de viragem” e que “a coligação deve fornecer uma data concreta para a eliminação do sistema nuclear.”
Investimentos da União Europeia
Durante os mandatos de von der Leyen, a Comissão Europeia mobilizou mais de dois biliões e meio de euros em investimentos ligados à transição energética, com uma grande parte orientada para energias renováveis intermitentes (solar e eólica).
Entre os programas criados contam-se:
– O Green Deal (mais de um bilião de euros até 2030);
– Financiamento climático do orçamento 2021-2027 da UE (cerca de 391 mil milhões de euros);
– Plano REPowerEU (cerca de 300 mil milhões de euros);
– Banco Europeu de Investimento (até €1 bilião mobilizado)
Os preços da energia mais elevados do mundo
Apesar de tantos investimentos no setor, os países da União Europeia pagam os preços de energia mais elevados no mundo. Em comparação com os Estados Unidos e a China, a energia para a indústria é duas a três vezes mais cara na Europa. Para os consumidores domésticos é cerca de 40% mais cara do que nos Estados Unidos e quase 3,5 vezes e meia mais cara do que na China.
Dependência da importação de hidrocarbonetos
A grande aposta nas energias renováveis intermitentes, solar e eólica, também não parece ter garantido a soberania energética à Europa. Pelo contrário, a Europa é o grande bloco económico mais dependente da importação de energia.
Ironicamente, mais de 50% da energia consumida na União Europeia vem de hidrocarbonetos (petróleo, carvão e gás) importados. Em 2024, esse valor foi de 58%.
Fontes:
Amnesia? EC chief von der Leyen now calls nuclear exit ‘strategic mistake’ – Brussels Signal
Reducing Europe’s nuclear energy sector was ‘strategic mistake’, EU chief says | Reuters
Electricity prices around the world | GlobalPetrolPrices.com
Adapt or Die: Europe’s Energy on the Edge – CEPA
Shockproof: how electrification can strengthen EU energy security | Ember
Ver também:
Lobby na UE (1): 35 maiores lobistas têm a Ação Climática como prioridade – The Blind Spot
Orçamento da UE para jatos privados cresce 46% em dez anos – The Blind Spot