Espanha: Autores de guias clínicas receberam 13 milhões da indústria, mas a maioria falhou na declaração de conflitos de interesse

Fonte: https://www.medpsychhealth.com/are-psychiatric-medications-over-prescribed-in-children-and-teenagers/

Um estudo recente revelou que quatro em cada cinco autores de guias clínicas que orientam diagnósticos, tratamentos e prescrições em Espanha recebeu dinheiro da indústria farmacêutica. No entanto, só 16,9% das autorias apresentaram declarações de conflitos de interesse consideradas fiáveis.

Um novo estudo publicado na Gaceta Sanitaria revela um problema estrutural na produção de recomendações médicas em Espanha, concretamente falhas graves na declaração de conflitos de interesse pelos especialistas que as produzem.

A análise comparou as declarações de conflitos nas guias com as transferências de valor publicadas pelas farmacêuticas, abrangeu 60 guias, 704 autores individuais e 810 autorias (alguns especialistas participaram em mais do que uma guia).

Conclusões do estudo

O estudo concluiu que quatro em cada cinco autores receberam pagamentos que só uma em cada seis autorias apresentou uma declaração fiável.

O montante total identificado pelos investigadores nos três anos anteriores à publicação da guia ascendeu a 13.078.785 euros, distribuídos por 4.788 transações. A mediana por autor foi de 7.544,85 euros.

Os números mais graves estão na qualidade das declarações. Em 53,1% das autorias, as declarações eram inexatas ou faltavam: 271 não apresentaram qualquer declaração apesar de haver pagamentos prévios, 85 declararam não ter conflitos apesar desses pagamentos e 74 reportaram conflitos em grau inferior ao registado.

Além dos casos claramente problemáticos, 57 autorias não tinham declaração e nem pagamentos prévios identificados e existem 186 autorias cuja fiabilidade não pôde ser confirmada porque os pagamentos só surgem no mesmo ano ou depois da publicação.

No extremo oposto, apenas 137 autorias (16,9%) apresentaram declarações fiáveis: 68 (8,4%) declararam ausência de conflitos de forma consistente com os registos e 69 (8,5%) declararam conflitos de forma compatível com os pagamentos identificados.

Menor fiabilidade dos coordenadores das guias

A investigação identifica ainda um ponto particularmente sensível: os coordenadores das guias, isto é, os especialistas com maior peso editorial e maior influência sobre o texto final, foram também dos menos transparentes. 79,1% dos coordenadores não apresentaram qualquer declaração de conflitos de interesse, face a 44,6% entre os restantes autores. A fiabilidade das declarações foi também inferior entre coordenadores: 13,9%, contra 17,1% nos não coordenadores.

Problema pode ser maior

O valor desta investigação está também no método. Os autores compararam aquilo que os especialistas declararam nas guias com os registos públicos de transferências de valor publicados pelas próprias farmacêuticas nos seus websites. Foi assim que detectaram omissões, declarações de “ausência de conflitos” incompatíveis com pagamentos identificados e declarações parciais.

O estudo nota, porém, uma limitação estrutural importante: Espanha não dispõe de uma base de dados centralizada como o Open Payments dos Estados Unidos. Algumas empresas mantêm registos acessíveis; outras só publicam os últimos três anos; outras recorrem a formatos não editáveis, o que dificulta o escrutínio e pode até subestimar o problema.

Essa limitação torna a conclusão ainda mais incómoda. Mesmo num sistema fragmentado, os investigadores encontraram 13,1 milhões de euros em pagamentos e um nível muito baixo de fiabilidade declarativa – um retrato difícil de conciliar com a exigência de independência nas guias que orientam diagnósticos, tratamentos e prescrições.

Fonte:

Financial conflicts of interest among authors of clinical practice guidelines in Spain: a cross-sectional analysis – ScienceDirect

Ver também:

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