Cheias de Valência: Estudo não encontra aumento na frequência de chuvas extraordinárias em Espanha

Fonte: https://tasabendo.com.br/geral/maio-registrou-pouca-chuva-e-temperaturas-acima-da-media-no-parana/

O primeiro-ministro espanhol, a ONU e inúmeros especialistas climáticos atribuiram responsabilidades pelas cheias em Valência de 2024 às alterações climáticas. No entanto, um novo estudo baseado em observações meteorológicas revela que não existiu qualquer tendência na frequência de eventos de precipitação intensa em Espanha continental entre 1916 e 2022. Os valores mais altos de precipitação diária extraordináriaocorreram entre 1955 e 1990, enquanto na classificada como “muito extraordinária”, a frequência anual tem-se mantido relativamente estável desde há mais de um século.

Um novo estudo publicado no International Journal of Climatology conclui que não foi detetada qualquer tendência na frequência de eventos de precipitação extraordinária na Espanha continental entre 1916 e 2022. A investigação, que analisou mais de um século de registos meteorológicos, contraria a ideia de que estes episódios tenham aumentado no período estudado.

A conclusão central é clara: os episódios de chuva diária muito intensa continuam a ocorrer, por vezes com forte impacto local, mas o catálogo histórico construído pelos investigadores não mostra uma subida sustentada da sua frequência. Segundo os autores, “não foi detetada tendência temporal” na frequência destes eventos extraordinários na Espanha continental entre 1916 e 2022.

O trabalho, financiado por fundos públicos, incluindo o Governo espanhol e o Governo regional de Aragão, apresenta o primeiro registo abrangente de precipitação extraordinária para a Espanha continental. A equipa combinou dados do Banco Nacional de Dados Climáticos da AEMET, entre 1916 e 2022, com registos históricos digitalizados dos anuários de observações meteorológicas de 1916 a 1950.

Resultados do estudo

Os investigadores definiram dois limiares: precipitação diária superior a 100 milímetros, classificada como extraordinária, e precipitação superior a 200 milímetros, classificada como muito extraordinária. Estes valores foram aplicados aos máximos diários mensais de precipitação.

Apesar de raros, estes fenómenos aparecem com frequência relevante no registo histórico. Entre 1916 e 2022, houve 4.814 dias em que pelo menos um observatório registou mais de 100 milímetros de chuva, o equivalente a 12,4% dos dias analisados. No mesmo período, houve 530 dias com registos superiores a 200 milímetros, cerca de 1,4% do tempo.

O estudo contabiliza 19.184 registos mensais acima de 100 milímetros em 4.325 observatórios. Para o limiar de 200 milímetros, foram identificados 1.130 registos em 664 observatórios. Isto mostra que a chuva extraordinária não é apenas um fenómeno isolado de alguns episódios recentes, mas uma realidade recorrente na climatologia espanhola.

Alterações na deteção de eventos extremos

A análise temporal, contudo, exige cautela. O número de estações meteorológicas mudou muito ao longo do século XX, aumentando a partir de cerca de 1940 até 1975 e diminuindo depois. Essa evolução pode influenciar a probabilidade de deteção de eventos extremos. Os próprios autores assinalam que parte das variações observadas acompanha a expansão e contração da rede de observação.

Mesmo tendo em conta essa limitação, o estudo afirma que os episódios acima de 100 milímetros oscilaram ao longo do tempo, com valores mais altos entre 1955 e 1990, mas regressaram depois a níveis próximos dos observados em décadas anteriores. Para eventos superiores a 200 milímetros, a frequência anual manteve-se relativamente estável, em média entre três e cinco dias por ano.

A distribuição geográfica não é uniforme. As chuvas extraordinárias ocorreram em quase todas as regiões da Espanha continental, mas foram mais frequentes junto às zonas costeiras e áreas montanhosas. Os eventos acima de 200 milímetros concentraram-se sobretudo no arco mediterrânico, com destaque para a fachada mediterrânica central e nordeste, bem como para zonas próximas do estreito de Gibraltar.

A sazonalidade também é marcada. Os meses de outono concentram a maior parte dos episódios, sobretudo setembro, outubro e novembro. Para eventos acima de 200 milímetros, outubro é o mês com mais dias registados, seguido de novembro, setembro e dezembro. Ainda assim, o estudo sublinha que estes episódios podem ocorrer em qualquer mês do ano.

Conclusão na linha de outros estudos

Essa conclusão complementa outras investigações, nomeadamente sobre a precipitação geral. Um dos mais abrangentes foi publicado na Nature, em março de 2025, e analisou a precipitação no Mediterrâneo entre 1871 e 2020 com base em mais de 23.000 estações meteorológicas de 27 países. A investigação concluiu que a precipitação mediterrânica permaneceu, em grande medida, estacionária no longo prazo, apesar de forte variabilidade interanual e multidecadal. Segundo os autores, embora possam existir tendências em determinados períodos ou sub-regiões, estas dependem muito da janela temporal analisada e estão sobretudo associadas à dinâmica atmosférica e à variabilidade interna do sistema climático. Não são o resultado de uma tendência regional dominante.

Embora este segundo estudo analise a precipitação anual e sazonal no Mediterrâneo, e não especificamente eventos diários extremos acima de 100 ou 200 milímetros, a convergência é relevante. Os dois trabalhos, juntamente com outros que usam registos históricos, recomendam cautela perante leituras lineares sobre uma suposta intensificação de anomalias climáticas na região.

Atribuição da tragédia às alterações climáticas

Após as cheias de Valência de 2024, várias entidades alegaram que as alterações climáticas contribuíram para a dimensão da tragédia, secundarizando fatores como a exposição urbana em zonas inundáveis e as falhas na gestão e comunicação dos alertas.

Desde logo, o primeiro ministro espanhol, Pedro Sánchez, que repetidamente atribuiu parte da tragédia de Valência às alterações climáticas, enquanto o seu executivo passou a enquadrar a reconstrução da região na necessidade de adaptação a eventos extremos mais frequentes.

Fonte: “El cambio climático mata”: Duras palabras de Pedro Sánchez en la COP29 recordando la DANA | Euronews (traduzido para português)

Também a ONU, por diversas vezes, associou a tragédia de Valência ao agravamento dos extremos meteorológicos.

Fonte: La ONU pide actuar contra el cambio climático para “salvar vidas” tras la dana de Valencia | Clima y Medio Ambiente | EL PAÍS (traduzido para português)

Além disso, vários jornalistas e especialistas, nacionais e internacionais, apresentaram o episódio como um exemplo dos riscos associados às alterações climáticas e responsabilizaram-nas pela tragédia.

Fonte: SIC Notícias – SIC Notícias | tv • web • app

Fonte: https://observador.pt/2024/12/06/catastrofe-de-valencia-amplificada-pelo-negacionismo-das-alteracoes-climaticas/

Fonte: Inundações catastróficas em Espanha diretamente ligadas às alterações climáticas | Euronews

Aparentemente, essas alegações encontram muito pouca sustentação na evidência científica independente, baseada em dados reais disponível, e não em extrapolações e em modelos climáticos.

Fonte:

Catalogue and Analysis of Extraordinary Precipitation Events in the Spanish Mainland, 1916–2022 – Gonzalez‐Hidalgo – 2025 – International Journal of Climatology – Wiley Online Library

Ver também:

Estudo Nature: Precipitação no Mediterrâneo estável há 150 anos, não existe qualquer tendência de seca meteorológica – The Blind Spot

Governo espanhol: Jornalistas devem associar calor a alterações climáticas e a emoções negativas – The Blind Spot

Arquivo de Clima – The Blind Spot

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