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Falácia “post hoc” (ou porque é que todas as mezinhas curam as constipações)

Uma falácia lógica é um erro de raciocínio que torna um dado argumento inválido.

A falácia Post hoc ou Post Hoc Ergo Propter Hoc é uma falácia lógica comum que resulta da confusão entre correlação e causalidade Neste caso, de que se um evento acontece depois de outro, então é resultado dele.

Tal como outras falácias, utiliza a nossa adaptação evolutiva para aceitar informação simplificada como segura (heurísticas). Neste caso a simples sequência de eventos é, com frequência, suficiente para intuirmos uma relação de causa-efeito entre ambos.

Eis alguns exemplos:

Política

Os políticos, em geral, aproveitam uma sequência de eventos para reclamar o crédito de coisas positivas, que muitas vezes pouco ou nada têm a ver com a sua ação. É uma forma muito simples e fácil de atrair eleitorado e, especialmente, de reforçar as perceções iniciais de quem já é apoiante.

Por outro lado, quando se trata de coisas negativas são apontados todo o tipo de motivos para que essa ligação de causalidade não seja estabelecida.

Tal atitude depende essencialmente da posição que se ocupa. Por exemplo, se fizerem parte de um governo eleito, o crescimento económico no ano seguinte é da sua responsabilidade, mas se estiverem na oposição, tal será devido a fatores externos, com os quais se arranje algum tipo de correlação.

Superstições

Quantos de nós não fazemos a mesma rotina para que o nosso clube ganhe. Quantos de nós não associamos uma qualquer ação ou comportamento a um desfecho, mesmo quando ambos não têm relação aparente?

Mesmo no desporto profissional as superstições associadas a esta falácia são frequentes. Pelé associava a sua capacidade futebolística à sua “camisa da sorte”. Michael Jordan tinha de jogar sempre com os seus calções velhos do tempo da Universidade debaixo do seu equipamento pois acreditava que os bons resultados disso dependiam.

Tratamentos

Todos os tipos de ações relacionadas com doenças normalmente benignas são facilmente interpretados como o motivo da evolução favorável.

Se se recorrer ao repouso absoluto para melhorar de fortes dores nas costas (lombalgias agudas) e se essa recuperação realmente acontecer, tendemos a atribuir a melhoria a esse comportamento.

Na realidade, as dores tendem a desaparecer de qualquer forma na grande maioria dos casos (sendo que o repouso absoluto não é recomendado atualmente).

O mesmo se passa, por exemplo, com as constipações. Tenderemos a associar qualquer chá, medicamento ou comportamento que tenhamos, com rápidas melhorias, mesmo que isso seja o curso normal da doença.

Até à emergência da medicina moderna, mesmo tratamentos que se relevariam prejudicais, como a sangria, foram usados durante milénios dada a perceção de que existiam melhorias após serem realizados.

Vacinação e autismo

Uma publicação do Lancet em 1998 associou a vacina contra o sarampo, a papeira e a rubéola ao autismo em crianças. O estudo foi posteriormente retirado e existe evidência sólida de que a associação não tem fundamento.

No entanto, a intuição de relacionar a toma de vacinas com casos de autismo é muito forte e essa ideia é ainda bastante popular.

Como evitar

A primeira coisa que nos pode ajudar a não cair nesta falácia é termos consciência da sua existência e de que somos muito vulneráveis.

Devemos igualmente evitar tirar conclusões precipitadas e, ao contrário, procurar explicações alternativas.

Outra forma de não estarmos tão expostos a essa associação automática é estabelecer, ou exigir a terceiros, uma previsão quantificada do impacto de um evento no outro, nomeadamente em termos de prazo (para fazer efeito) e de intensidade.

Por exemplo, quem propõem uma dada medida deve estimar quando fará efeito e de que forma. Caso contrário, eventos que naturalmente aconteceriam tenderão a ser associados à medida.

Sempre que possível, e para realmente se conseguir estabelecer uma relação de causa-efeito, é necessário o recurso ao método científico. Mesmo a esse nível, apenas os RCTs (Randomised Controlled Trials) com controlo de variáveis e amostragem aleatórias dos grupos em comparação, têm essa capacidade.

Notas finais

Estamos muito expostos a este tipo de falácia.

Alguns dos nossos vieses, como o da disponibilidade e o da confirmação, tornam-nos ainda mais suscetíveis.

Eliminá-la totalmente é impossível, mas existem formas de a tentar minimizar e evitarmos ser enganados por outros, ou até por nós próprios.

Por isso, mais do que seguir experiências pessoais, teorias intuitivas ou correlações a que estejamos mais expostos, é importante tentarmos ver se os fenómenos já foram estudados de forma rigorosa.

Caso contrário, estaremos sempre sujeitos a grandes distorções e reféns desta tendência de estabelecer relações de causalidade de forma instintiva, mesmo onde elas não existem.

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