Portugueses confiam cada vez menos nas notícias

Em 2025, a confiança dos portugueses nas notícias que consomem atingiu o valor mais baixo (55%), verificando-se uma queda de 16% em 10 anos. Os inquiridos pelo Digital News Report dizem confiar cada vez menos nos principais órgãos de comunicação social, com a RTP, o Público, a TSF e o Expresso a registarem das maiores quebras – uma tendência que o relatório descreve como “preocupante”. Apenas o Correio da Manhã, o Observador e o Notícias ao Minuto contrariaram este cenário, conquistando uma confiança crescente junto dos portugueses. Ao mesmo tempo, 28% considera os média (e os jornalistas) a maior fonte de desinformação, sendo que esta percentagem ascende aos 36% entre os jovens dos 18 aos 24 anos.

A confiança dos portugueses em notícias tem vindo a cair de forma consistente, tendo atingido este ano o seu nível mais baixo, pelo menos, na última década. Actualmente, pouco mais de metade da população (55%) diz que confia nas notícias que consome, menos 16% do que há 10 anos. Quanto às notícias em geral, a confiança também caiu para 54%, o que representa uma queda de 10 pontos percentuais em relação a 2015 e de dois pontos percentuais face ao ano passado. As conclusões são do Digital News Report, produzido anualmente pela Obercom em parceria com o Reuters Institute for the Study of Journalism.

Fonte: https://www.obercom.pt/wp-content/uploads/2025/06/DNR-PT-2025_17Jun.pdf

Este cenário confirmou-se também na quebra de confiança que os inquiridos revelaram em cada um dos principais órgãos de comunicação social portugueses – uma tendência que o relatório diz ser “preocupante”.

Com efeito, todos eles têm vindo ‘perder pontos’, à excepção de três: o Correio da Manhã, o Observador e o Notícias ao Minuto. Aqui, destacam-se sobretudo os dois primeiros jornais, que conseguiram subir na confiança dos portugueses em cerca de 10%.

Fonte: https://www.obercom.pt/wp-content/uploads/2025/06/DNR-PT-2025_17Jun.pdf

Por outro lado, entre os títulos que mais perderam a confiança dos portugueses nos últimos anos – desde que começaram a ser analisados neste estudo – estão a RTP (-6.0 p.p), o Público (-5.2 p.p), a TSF (-4.5 p.p) e o Expresso (-4.5 p.p). Note-se, contudo que alguns destes meios, como a RTP, o Público ou o Expresso, continuam a ser dos jornais em quem os inquiridos depositam mais confiança (superior a 70%), mas a queda sustentada faz com que liderem um cenário que é “na generalidade negativo”, frisa o relatório.

Confiança cai mas ainda é elevada

Apesar desta descida, Portugal continua a figurar entre os países onde a confiança é maior,  ocupando o 7.º lugar numa lista de 48. Globalmente, fica apenas atrás da Nigéria (68%), da Finlândia (67%), do Quénia (65%), da Dinamarca (56%) da África do Sul (55%) e da Tailândia (55%). Contudo, nos países do Sul da Europa, destaca-se no primeiro lugar.

Segundo o relatório, encontram-se mais portugueses a confiar em notícias na população mais envelhecida, naquela que se situa à esquerda e ao centro do espectro político ou com rendimentos e nível de escolaridade mais elevados.

Em sentido contrário, o grau de confiança nas notícias tende a ser menor entre as faixas etárias mais jovens (dos 25 aos 44 anos), ou com rendimentos e escolaridade mais baixos, ou, ainda, naqueles que se identificam mais com a direita ou que não se definiram politicamente.

Fonte: https://www.obercom.pt/wp-content/uploads/2025/06/DNR-PT-2025_17Jun.pdf

‘Medo’ da desinformação e confiança

Portugal é também um dos países onde mais pessoas dizem estar preocupadas com a desinformação e com a veracidade (ou falta dela) daquilo que circula na internet, com 71% dos inquiridos a assumir essa preocupação. Uma percentagem que, mantendo-se estável, está bastante acima da média global (de 58%) e atrás de vários países europeus como a Áustria (41%), a Alemanha (42%), os Países Baixos (43%) ou a Dinamarca (43%). Esta preocupação com a desinformação tende a ser maior entre os portugueses que mais confiam nas notícias (quase 80% neste segmento), os mais velhos, os mais escolarizados ou os mais definidos politicamente.

Fonte: https://www.obercom.pt/wp-content/uploads/2025/06/DNR-PT-2025_17Jun.pdf

No que concerne à disseminação de informações falsas, mais de metade dos inquiridos (51%) considera que a maior ameaça vem dos ‘influencers’ e das personalidades no mundo digital. Esta percepção é mais prevalente na faixa etária acima dos 55 anos. No entanto, apenas 39% dos portugueses – e, em particular, aqueles que têm mais de 45 anos –, consideram que as redes sociais deviam remover mais conteúdos. Em contrapartida, quase um em cada três jovens dos 18 aos 24 anos tende a acreditar que as plataformas digitais retiram a quantidade certa.

Uma ‘fatia’ significativa acredita ainda que os políticos ou os partidos nacionais representam a maior ameaça quanto às informações falsas, seguidos de perto pelos governos ou agentes políticos estrangeiros e os grupos activistas.

Curiosamente, 28% de portugueses veem os próprios meios de comunicação social e os jornalistas como uma fonte de desinformação – sendo que esta opinião é mais expressiva entre os jovens dos 18 aos 24 anos (36%) e os que se dizem de direita (39%).

Consumo de informação

Em contraste com outros países, como os Estados Unidos e o Reino Unido, em que as redes sociais já têm um alcance superior ao de órgãos noticiosos históricos, em Portugal a televisão ainda é a principal fonte de notícias para 53% da população.

Por seu turno, a internet é o meio principal para apenas 19% dos inquiridos. embora a percentagem de pessoas que utiliza tanto a televisão como a internet seja de 67%.

Saliente-se, no entanto, que a idade é um evidente factor de diferenciação, uma vez que 26% dos jovens entre os 18 e os 24 anos preferem aceder às notícias através da internet, ao passo que, inversamente, são sobretudo os mais velhos que tendem a eleger a televisão como a sua fonte predilecta de informação.

Já a rádio e a imprensa em papel assumem a importância mais reduzida: apenas 7% e 4%, respectivamente, preferem consumir notícias por estes meios.

“Os resultados apontam para um ecossistema informativo híbrido, em que coexistem marcas jornalísticas tradicionais, criadores de conteúdos e redes pessoais, com diferenças significativas entre plataformas e perfis demográficos, sobretudo entre gerações, onde os mais jovens optam por redes como TikTok e Instagram, e os mais velhos mantêm o Facebook como canal preferencial para notícias. Em todo o caso, Portugal está longe da realidade anglo-saxónica, de países como os E.U.A. ou o Reino Unido onde os influencers presentes no Youtube e na esfera do podcasting já atingem audiências em quantidade superior a muitas marcas de notícias históricas”, refere o relatório.

Para este estudo, divulgado no passado dia 17 de Junho, foram inquiridas 2.012 pessoas.

Fontes

Digital News Report Portugal 2025 – Obercom

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