Concentrações realizadas em centenas de localidades transformaram o Dia de Ceuta numa mobilização de dimensão nacional. Os manifestantes exigiram o reforço da segurança e do controlo fronteiriço, a recuperação da normalidade na cidade e responsabilidades pela atuação do Governo espanhol perante Marrocos.
Mais de 400 mil pessoas participaram, a 2 de setembro, nas manifestações de apoio a Ceuta realizadas por toda a Espanha. A mobilização chegou às principais capitais, a cidades médias e a dezenas de municípios, depois da entrada em massa de migrantes a partir de Marrocos e da subsequente crise política, humanitária e de segurança no território espanhol do Norte de África.
As concentrações combinaram diferentes reivindicações. A convocatória institucional da Federação Espanhola de Municípios e Províncias (FEMP) centrou-se na solidariedade com Ceuta, na defesa da soberania espanhola e na exigência de mais recursos nacionais e europeus. Nas manifestações promovidas por cidadãos e apoiadas pelo Partido Popular (PP) e pelo Vox, acrescentaram-se críticas à política migratória, pedidos de expulsão dos migrantes em situação irregular e acusações de que o Governo de Pedro Sánchez reagiu tarde, ocultou informação e adotou uma posição excessivamente favorável a Marrocos.
Não foi publicada uma contagem nacional pelas autoridades espanholas. Contudo, a soma das estimativas policiais e governamentais disponíveis para localidades que não se sobrepõem ultrapassa 402 mil participantes. Este valor constitui um mínimo documentado, não uma estimativa da totalidade da mobilização, porque numerosas concentrações não tiveram qualquer contagem divulgada.
Segurança, soberania e críticas ao Governo
O manifesto da Federação Espanhola de Municípios e Províncias reafirmava que Ceuta «é e será sempre Espanha» e que a integridade territorial espanhola não é negociável. A iniciativa defendia que a pressão migratória e a proteção da fronteira exigiam uma resposta do Estado e um compromisso firme da União Europeia.
Entre as exigências institucionais encontravam-se o reforço dos meios do Estado em Ceuta, o controlo efetivo da fronteira, a recuperação da normalidade e a atribuição de financiamento extraordinário para suportar os custos da emergência. A Federação declarou que a cidade não poderia enfrentar sozinha uma situação que afetava o conjunto de Espanha e da Europa.
O manifesto apresentado pelo Foro Ceuta Siglo XXI acrescentou reivindicações mais abrangentes. A organização pediu o reforço permanente da Polícia Nacional e da Guardia Civil, melhores infraestruturas fronteiriças, maior capacidade dos serviços de informações e presença operacional da Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, conhecida como Frontex.
O documento defendeu igualmente alterações nos protocolos de repatriamento e nas normas relativas aos menores, a integração de Ceuta na União Aduaneira e o reconhecimento explícito da proteção de Ceuta e Melilla pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Pediu ainda um plano para responder às carências da cidade nos setores da saúde, educação e transportes.
Nas manifestações, a solidariedade institucional coexistiu com uma contestação direta ao Governo. Em Madrid, Valência, Ibiza, Ceuta e noutras cidades ouviram-se pedidos de demissão ou prisão de Pedro Sánchez, acusações de traição e exigências de expulsão das pessoas que entraram irregularmente.
As principais críticas dirigidas ao Executivo foram a alegada incapacidade de antecipar a entrada em massa, a resposta considerada tardia, a insuficiência de recursos policiais e de acolhimento, a demora nas transferências e nos repatriamentos e a ausência de uma posição diplomática mais firme perante Marrocos.
Relatório policial reforçou suspeitas sobre Marrocos
Parte da contestação política resultou de um relatório do Centro Nacional de Imigração e Fronteiras da Polícia Nacional, remetido à Audiência Nacional.
O documento concluiu que a entrada não pareceu acidental ou espontânea. Apontou para planeamento prévio, permissividade das autoridades marroquinas e a presença de agentes, uniformizados e à paisana, que terão guiado os grupos em direção a Ceuta.
Segundo a análise policial, a dimensão e a coordenação da operação ultrapassaram a capacidade habitual das redes de tráfico de pessoas. O relatório considerou ainda que a finalidade migratória poderá ter servido de cobertura para provocar o colapso dos mecanismos espanhóis de controlo fronteiriço.
O documento não identificou, contudo, uma autoria concreta nem demonstrou publicamente que a operação tenha sido ordenada pelo Governo marroquino. Pedro Sánchez afirmou que não existiam provas suficientes para responsabilizar formalmente as autoridades de Marrocos.
Residentes denunciam crimes e perda de segurança
A perceção de insegurança tornou-se outro motivo central das manifestações realizadas em Ceuta. Residentes, polícias, bombeiros, profissionais de saúde e trabalhadores dos serviços de emergência afirmaram que a dimensão da crise ultrapassou a capacidade de resposta da cidade.
O Ministério Público confirmou um aumento de algumas categorias de criminalidade desde a entrada em massa, nomeadamente crimes contra o património, agressões sexuais e crimes de atentado ou resistência à autoridade.
Entre os incidentes denunciados encontram-se furtos, roubos com violência, tentativas de roubo em garagens, entradas não autorizadas em propriedades, agressões físicas, pelejas e ataques contra agentes públicos.
A secção de Saúde da União Geral de Trabalhadores (UGT) denunciou também agressões contra trabalhadores de ambulâncias. Segundo o sindicato, vários profissionais sofreram lesões e baixas médicas durante intervenções na via pública, levando à exigência de proteção policial para as equipas que trabalham nas zonas consideradas mais perigosas.
Foram igualmente noticiadas ocorrências relacionadas com tráfico de droga, danos em propriedades e ataques contra veículos das forças de segurança. Não existe, porém, um balanço policial público e consolidado que quantifique todos estes crimes ou identifique a situação migratória dos presumíveis autores.
O Ministério Público registou 23 agressões sexuais desde o início da crise, cinco das quais classificadas como violações. Nove vítimas eram menores com idades entre os 14 e os 17 anos. As vítimas eram maioritariamente mulheres e menores migrantes. Entre os oito presumíveis autores identificados encontravam-se quatro marroquinos, três espanhóis e um belga.
A extensão territorial e o volume de participantes demonstram que os acontecimentos de Ceuta ultrapassaram a dimensão local. A defesa da soberania, a exigência de segurança, as denúncias de criminalidade e as críticas à resposta do Governo transformaram a crise fronteiriça num dos principais focos de contestação política em Espanha.
Principais fontes
Europa Press: balanço nacional das manifestações
El País: manifestações, críticas ao Governo e estimativas de participação
El País: relatório policial sobre a possível intervenção de agentes marroquinos
Radiotelevisão Espanhola: crimes registados pela Fiscalía durante a crise
Europa Press: protesto dos bombeiros, polícias e profissionais de emergência
Ceuta Ahora: reivindicações do manifesto do Foro Ceuta Siglo XXI
Antena 3: denúncias de crimes e insegurança em Ceuta
